Fundamentos

A Palavra instauradora

Gustave Moreau

Gustave Moreau

A palavra há-de ser instauradora. A palavra é o que há de mais frágil no mundo. É daí que se nasce. A palavra deve fazer nascer o sujeito. Esta ideia que podemos nascer da palavra do Outro – que encontramos hoje sob formas que já não são cristãs como tais – habita toda a experiência mística e vai até aos grandes poemas de Angelus Silesius que faz rimar schricht com nicht (a escrita é nada) e espera uma palavra que o faça filho. (…)

A questão é esta: que nos resta da palavra? O texto pelo qual João da Cruz introduz a subida ao monte Carmelo: escrevo porque há tanta gente que espera um ouvido, que os escutem e não há. Portanto uma expectação da palavra, fundamentalmente do género da fábula: como dar corpo a esta palavra, como oferecer um corpo à palavra, i.e., um espaço.

A palavra, recordemos-lo, é sempre um eco. A alma é um eco do Outro. Mas não há eco se não há espaço. É necessário dar um espaço em que ela possa ter eco do Outro. É o que se poderia chamar uma poética do corpo falante, um espaço que a voz do outro, uma palavra do Outro, possa encontrar lugar, ter lugar. É necessária a imobilidade e a noite par ouvir os passos de quem se aproxima. O eco do outro é a alma: um espaço em que o outro ressoa, em que aquilo que começa aparece como um fenómeno de recepção. O eco, não a coisa. (José A. Mourão, O Fulgor é Móvel: p. 99)

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