Fundamentos

De Rui Chafes

Rui Chafes, ‘Ascensão’ (pormenor), Igreja de S. Cristovão, Lisboa (foto: rjm/SNPC)

«Eu não ando à procura de nada. Sigo uma linha de investigação e, durante o processo, deparo-me com fendas e encontro aberturas que me conduzem a novos caminhos. Mas esses encontros são imprevisíveis, surgem de onde e quando menos espero e não posso, ou não me vale a pena, andar à procura deles. Não decorrem necessariamente do trabalho que estou a materializar. Podem provir, inclusive, de uma luz que vejo projectada numa parede, de uma sombra, ou de uma palavra que li ou ouvi… Prefiro dizer que são resultado de epifanias» (p. 52).

«Para mim, é no e do impartilhável que a arte sobrevive. Ou seja, guardo sempre um espaço para o silêncio, para a incompreensão. E até um espaço para o mistério. Eu só me interesso pela arte enquanto produtora de uma energia irracional e secreta. A arte é tudo menos comunicação» (p. 83).

«Não desejo morrer já, queria fechar um círculo mais amplo do que este onde ainda estou. Não quero fechar este círculo, quero outro círculo ainda, um que faça ainda mais sentido do que este, mas que ainda não sei qual é. Não podemos saber qual é esse círculo. Provavelmente é o de queda no início, outra vez, mas não pela primeira vez: um encontro com o início mas depois de ter percorrido toda a espiral» (p. 165).

«Somos obrigados a fazer parte do mundo, quer queiramos quer não, envolvermo-nos mais nele, nas suas questões mais imediatas e quotidianas. É esta ideia que tenho da maternidade (e da paternidade, claro): uma dádiva que nos obriga a participar no mundo, a ser menos egoístas ou autocentrados. Dar ao mundo as crianças e às crianças o mundo. Partilhar sem pedir nada em troca – isso é, de facto, o que melhor se aprende com as crianças» (p. 180).

Rui Chafes, Sob a Pele: Conversas com Sara Antónia Matos, Ed. Documenta, Lisboa 2016

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