Fundamentos

Diário 2018

Barnett-Newman ‘Concord’ 1949

 

15.junho

LÓGICA NECROLÓGICA

Os amores
que não tive
(e foram
muitos)
moeram-me
o juízo

Também
não tive
muitos filhos
isto é
não tive
nenhum

Não
me queixo

O que
não foi
(e foi muito)
deu-me
muito trabalho
e muito

Adília Lopes, Capilé, 2016, p. 29

14.junho

«Todos os cumes
estão em silêncio.
No alto de todas as árvores
apenas sentes
um leve sopro;
os pássaros emudecem na floresta.
Tem paciência, em breve
também tu dormirás.

A ideia do poema [de Goethe] é muito simples: a floresta adormece, tu vais também adormecer. A vocação da poesia não é deslumbrar-nos com uma ideia surpreendente, mas fazer com que um instante do ser se torne inesquecível e digno de uma insustentável nostalgia».

Milan Kundera, A Imortalidade, Lisboa 2012, p. 35

13.junho

«Antes ainda de desaparecerem da paisagem, os caminhos desapareceram da alma humana: o homem já não sente o desejo de caminhar e de extrair disso um prazer. E também a sua vida ele já não vê como um caminho, mas como uma estrada: como uma linha conduzindo à etapa seguinte, do posto de capitão ao posto de general, do estatuto de esposa ao estatuto de viúva. O tempo de viver reduziu-se a um simples obstáculo que é preciso ultrapassar a uma velocidade sempre crescente».

Milan Kundera, A Imortalidade, Lisboa 2012, p. 251

17.abril

[De João Miguel Fernandes Jorge, Mirleos, Lisboa 2015]

 

[…] Quanto a José, que

não figura entre as mães, deixava-se estar
de seu hábito
o mais das vezes pés nodosos ao sabor da terra
[se fosse hoje haveria de pôr sapatilhas
para dançar nas margens do mar] ele, que não figura

no grupo,
sorria melhor
que jamais alguém, possíveis e avizinhados.

CRISTO NEGRO

Pelo começa da primavera
florescem as cerejeiras. A cruz
foi erguida.
A morte feriu-lhe os lábios.
Chaga de sangue negro.

Um pouco de água para aquele que morre.

A cabeça caiu sobre o peito.
Ao peso do corpo rasgam-se os tendões.
Queimam os olhos um rastilho de gelo.
A dor chegou ao fim,
antes de se iluminar o crepúsculo – eco
cortante da deriva da alma.

As suas carnes brilham na frieza do luar.

5.abril

“Lo que llevo son pantalones. Lo que yo hago es vivir. Mi forma de orar consiste en respirar. ¿Quién dijo «zen»? Enjuaga tu boca si dijiste «zen». Si ves una meditación que pasa cerca, dispara contra ella. ¿Quién dijo «amor»? El amor está en las películas. La vida espiritual es algo que preocupa a muchos cuando andan tan atareados con otra cosa que ellos mismos piensan que tienen que ser espirituales. La vida espiritual es culpa.”

Excerto de: Thomas Merton. “Diarios [1939-1968]”. iBooks, (p. 581).

6.março

A importância do negativo na vida espiritual:

«Não temos chefe, nem guia nem profeta,
nem holocausto nem sacrifício, nem oblação nem incenso,
nem lugar onde apresentar-Vos as primícias
para alcançar misericórdia.
Mas de coração arrependido e espírito humilhado
sejamos por Vós recebidos».

Daniel 3, 38-39

 

5.março

De Dietrich Bonhoeffer (via Gustavo Cabral):

«Creio que Deus pode e quer fazer surgir o bem de tudo, inclusive do péssimo. (…)
Creio que nem as nossas faltas e erros são em vão, e que para Deus será mais fácil contar connosco neles do que com as nossas supostas boas ações».

12.fevereiro

Quarta-feira de Cinzas:

«Faz luto, homem, porque ainda não és pó. Recebe as tuas cinzas e alegra-te».

Thomas Merton, Diários, 26 de fevereiro de 1952

1.fevereiro

«As abelhas são felizes e, por isso mesmo, silenciosas».

Thomas Merton, Diários, 14 de julho de 1949

24.janeiro

“Tal como não é possível navegar pelo mar
Sem que haja portos e ancoradouros,
Tampouco é possível que a nossa vida tenha consistência
Se dela eliminarmos a compaixão, o perdão e a caridade”.

(João Crisóstomo, Homilias sobre São Mateus, 53, 3)

3.janeiro

«Qual é o sentido da vida?»

«Eu acho que os homens não são capazes de responder a esse sentido. O sentido da vida… o preocupar-se com o sentido da vida é o máximo que o homem e a consciência humana atinge, a auto-consciência de que é aí que tudo se inscreve, em ser consciente de que vivemos, e que essa vida é uma vida limitada, e que o sentido da vida se inclui nessa consciência da própria limitação. Nós não somos os deuses de nós mesmos: isso é a única coisa que eu sei». (16:30)


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