Foi na leitura do best-seller do teólogo alemão Hans Kung, «Ser Cristiano», re-editado agora em castelhano pela Editorial Trotta, que se levantou a questão. Foi Jesus de Nazaré um revolucionário? Ou, pelo contrário, o modelo de estabilidade e conservação de uma ordem social? E, se foi um revolucionário, em que medida o podemos entender? Estas perguntas, que estiveram muito em moda nas décadas de 60 e 70 pelo seu contexto social europeu (o livro foi originalmente publicado em 1974), podem de novo hoje ser levantadas, à medida que vemos um sistema económico a entrar em crise aguda e a arrastar as vidas de milhares de pessoas com ele.
Também na Palestina do tempo de Jesus existia um ‘establishment’, um sistema político, económico e social sob ocupação romana: «uma espécie de Estado eclesiástico teocrático contra o qual Jesus seria violentamente confrontado». O órgão de soberania judaica era representado pelo Sinédrio, uma Assembleia de 70 membros entre sacerdotes, anciãos (das principais familias económicas de Jerusalém) e fariseus, e presidido pelo Sumo-Sacerdote. O Sinédrio era responsável pelas relações com o poder romano e pela manutenção da ordem. Este regime era, ao lado do poder romano, odiado pela maioria da população, sobretudo na que mais afastada estava do centro, Jerusalém: na ‘Galileia dos gentios’.
«Jesus não se preocupava com o statu quo politico-religioso. Os seus pensamentos centravam-se num futuro melhor, no futuro melhor do mundo e do homem. Esperava em breve uma mudança radical da situação. Por isso criticou com palavras e acções a situação existente e censurou a ordem eclesiástica estabelecida (…) Jesus sentia-se impulsionado por uma intensa expectativa do fim: este sistema não é definitivo, esta história chega ao seu fim. E é justamente agora. Este é o momento. Esta mesma geração assistirá à mudança da realidade e à revelação definitiva de Deus. Jesus está assim, indiscutivelmente, inserido na órbita do movimento ‘apocaliptico’ que, a partir do século II a C., tinha contagiado vários estratos do judaísmo.» Recordemos, sobretudo, a figura de João Baptista, a quem Jesus, embora tendo superado o seu anúncio, não deixou de o confirmou com o seu baptismo e com expressões como «é o maior de todos os nascidos de mulher».
Mas este anúncio ‘apocalíptico’ deve ser bem entendido: para Jesus, ao contrário de para João Baptista, não se trata de um anúncio sombrio. Já João Baptista havia sido uma novidade ao proclamar que a ‘ira de Deus’ não era dirigida para os pagãos, os ocupantes romanos, os samaritantos – não chegava ser filho de Abraão, era necessária uma conversão real nas atitudes e relações. Também João Baptista tinha surgido no deserto, longe do establishment de Jerusalém. Agora, Jesus anuncia um Reino, não apenas de juízo e de condenação, mas de Graça, de Salvação e de Libertação sobretudo para os pobres e oprimidos. Este Reino torna-se manifesto através dos ‘sinais poderosos’ que Jesus realiza, sinais de cura, de libertação, de poder sobre tudo o que desumaniza o ser humano. Porque ao contrário do que poderemos entender hoje, no horizonte dos Evangelhos a humanização não é uma questão de auto-realização pessoal, de superação das próprias limitações e aquisição de uma personalidade forte: a humanização, nos Evangelhos, acontece pela libertação dos poderes que oprimem o ser humano, de tudo o que é desumanização, e só acontece mediante a abertura aos outros e ao Outro. Uma abertura de confiança.
«A Mensagem de Jesus era, sem dúvida, revolucionária, se por revolucionária se entende a transformação radical das condições ou da situação existente.» A Palestina, e mais propriamente a Galileia dos séculos imediatamente anteriores e posteriores a Jesus, era um território particularmente fértil para revoltas populares. Neste campo as legiões romanas tinham particularmente trabalho reforçado. No tempo de Jesus tinha uma força especial o partido dos zelotas, espécie de guerrilheiros, e Jesus terá tido discípulos que eram zelotas – ‘Simão o zelota’, não confundir com Simão Pedro. Pilatos seria destituido no ano 36 d.C. pelo próprio imperador romano por queixas sobre a brutalidade da sua politica. Ao mesmo tempo, este período subversivo vinha acompanhado de uma intensa esperança messiânica, da chegada de um Ungido-Messias, um Libertador enviado por Deus ao jeito de David e dos Macabeus.
«Tal como os políticos radicais, Jesus espera uma mudança fundamental da situação, a imediata instauração do reinado de Deus em lugar da ordem humana de governo. O mundo não está em ordem, tem de mudar radicalmente. Também Jesus Cristo critica duramente aos círculos dominantes e aos grande sproprietários enriquecidos. Ataca os desiquilíbrios sociais, os abusos legais, a cobiça e a dureza de coração e fala em favor dos pobres, os oprimidos, os perseguidos, os miseráveis, os esquecidos. Entra em polémica contra os que levam vestidos elegantes na corte dos reis (Mt 11,8), permite-se ter observações mordazes e irónicas sobre os tiranos que se fazem chamar de ‘benfeitores do povo’ (Lc 22,25) e, segundo a tradição de Lucas, aplica a Herodes Antipas o desrespeitável apelido de ‘raposa’. Não anuncia um Deus de poderosos e ricos, mas um Deus de libertação e redenção (…) Os Evangelhos, indiscutivelmente, não apresentam um Jesus suave e doce de perfil paleo-romantico ou neo-romantico, nem um ‘honrado’ Cristo de Igreja. Nada faz pensar num inteligente diplomata ou num episcopal ‘homem de equilibrio’. Os Evangelhos mostram, antes de mais, um Jesus decididamente resolto, perspicaz, inflexível, batalhador e polémico quando é necessário.»
Em todo o caso, podemos falar de um revolucionário social ou guerrilheiro? Os Evangelhos negam-no, através de diversos elementos. Não procura antecipar o reinado de Deus através da violência sobre os ‘inimigos de Deus’, fossem os ocupadores romanos, os colaboradores (publicanos, por exemplo), os samaritanos, o regime sacerdotal de Jerusalém, etc. Contacta com funcionários romanos que o procuram. Tem a publicanos como discípulos, lado-a-lado com zelotas. Não se deixa levar pela armadilha montada pelos fariseus e enviados de Herodes, quando o questionam sobre o imposto a César. Pede o chamado ‘segredo messiânico’ aos discípulos, sobretudo no Evangelho de Marcos. Recusa ser proclamado como rei. Entra em Jerusalém no símbolo fortíssimo do jumento, símbolo da paz e da mansidão de Zacarias. Evita ser chamado de ‘Filho da David’. Numa palavra: recusa o poder. «A renúncia ao poder, a moderação, a misericórdia, a paz: a libertação dessa espiral diabólica de violência e contraviolência, de culpa e retribuição.»
O autor fala da «Revolução da Não-Violência»: será esta, talvez, a melhor ou a menos-má expressão que poderemos utilizar para falar do programa de Jesus – cada geração deverá, à luz do Evangelho, encontrar as suas. O episódio do Templo, narrado pelos Evangelhos como ‘a gota de água’ que provoca o processo levantado contra Jesus, torna-se muito pequeno, simbólico mesmo, para falar de violência. Conclui H. Kung:
«Jesus não foi um homem do establishment. Jesus não foi um conformista, um apologeta do sistema estabelecido, um defensor da calma e da ordem. Antes estimulou e exigiu uma decisão. Nesse sentido, ele trouxe a espada: não a paz, mas uma oposição, às vezes até no seio familiar (Mt 10,3-37). Questionou nos seus fundamentos o sistema religioso-social judeu, a ordem vigente da lei e do templo; nesse sentido, a sua mensagem teve consequências políticas. Mas, por outro lado, não se pode perder de vista que para Jesus a alternativa do sistema, do establishment, da ordem vigente não é exactamente a revolução politico-social. A ele podem remeter-se Gandhi e Martin Luther King. Ele não pregou nenhuma revolução, nem de direita nem de esquerda.»
Assim, o autor apresenta uma comparação fundamental: «Se Jesus tivesse realizado na Palestina uma reforma agrária radical, já há muito tempo que teria sido esquecido. Se, como os rebeldes do ano 66 em Jerusalém, tivesse deitado fogo ao arquivo da cidade com todos os títulos hipotecários dos banqueiros, não teria passado de um episódio, como o foi o heróico libertador dos escravos Spartacus, com os seus 70 mil escravos libertados e as suas 7 mil cruzes alinhadas na Via Ápia.»
«Jesus foi mais revolucionário que os revolucionários: em vez da aniquilação dos inimigos, amor aos inimigos; em vez da vingança, um perdão incondicional; em vez do uso da força, a abertura ao sofrimento; em vez de cânticos de ódio e de vingança, exaltação dos pacíficos! A revolução levada a cabo por Jesus foi decididamente uma revolução da não-violência, uma revolução desde o mais íntimo e escondido, desde o centro da pessoa, desde o coração do homem para fora, para a sociedade. Não são os poderes hostis do mundo os verdadeiros poderes estranhos dos quais o homem deve ser libertado, senão as forças do mal: o ódio, a injustiça, a discórdia, a violência, a falsidade, os egoísmos humanos em geral, e com eles a dor, a enfermidade e a morte. Para o qual se requer uma mudança de consciência, um novo pensar, uma escala de valores distinta. Uma superação do mal que não reside unicamente no sistema, nas estruturas, senão no homem. Uma liberdade interior, que conduz à libertação dos poderes externos. Uma transformação da sociedade através da transformação do indivíduo.»
Citações de Hans Kung, «Ser Cristiano», 5ª edição, Madrid 2012, págs. 183ss
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Se, para Jesus, deve alinhar-se à perspectiva de: “Uma transformação da sociedade através da transformação do indivíduo”,então, certos estão os liberais?
Tudo começa no indivíduo?
O sistema capitalista de exploração apresenta-se cheio de “homens bons” a serviço de um projeto biocida.
A moral individual parece-nos pouco atenta à Ética da convivialidade, tornada possível por uma inteligência coletiva.
Estranha revolução que radica no indivíduo a questão nodal.
O caminho apresentado por Jesus não foi apenas o da transformação interior, mas também o da construção de uma nova sociedade através da vivência em comunidades sociais-econômicas. Ele viveu desta forma com seus discípulos e também os primeiros cristãos tentaram. Pelas dificuldades resolveram(infelizmente) mudar o modelo para o de comunidades religiosas(conventos, etc).
Parabéns pelo artigo !!