Fundamentos

O Hipopótamo de Deus

Acaba de chegar à Fundamentos a re-edição, consideravelmente aumentada, do livro de José Tolentino Mendonça «O Hipopótamo de Deus»: aqui fica um breve excerto:

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O Hipopótamo de Deus

José Tolentino Mendonça, Paulinas 2013 (2ª edição, revista e alargada)

Foi em 2010 publicado pela primeira vez, na Assírio&Alvim, o livro «O Hipopótamo de Deus», reunindo um conjunto de artigos do autor no Público, Secretariado da Cultura, etc. Agora, numa nova edição pelas Paulinas, o livro é consideravelmente aumentado com crónicas, pensamentos e artigos escritos nos últimos dois anos.

«Um dos passos mais belo da Bíblia tem a ver com um hipopótamo. E não é propriamente um divertimento teológico, pois surge numa obra que explora muito seriamente os limites da responsabilidade humana face à experiência devastadora do Mal. Falo do Livro de Job, claro. O que primeiro nos surge ali é o protesto de Job contra o Mal que se abate inexplicavelmente sobre a sua história, protesto que se estende até Deus, já que, afinal, Ele não isenta os justos das tribulações.

Mas depois vem o momento em que Deus se propõe interrogá-lo. E nesse diálogo assombroso, desenvolve-se um raciocínio que não pode ser mais desconcertante. Job só consegue pensar nas suas dores e nos porquês com os quais, inutilmente, esgrima. Deus, porém, desafia-o a olhar de frente para… um hipopótamo.

O método de Deus neste singular encontro com Job é abrir a medida do seu olhar, rasgá-lo imensamente a tudo o que é grande, a tudo o que não tem resposta, mostrando-lhe que se o Mal é um enigma que nos cala, o Bem é um mistério ainda maior. A maravilhosa obra do Criador também não tem resposta. Porquê pretender a todo o custo uma solução para o Mal, se o bem é igualmente uma pergunta, e um pergunta mais funda, vasta e silenciosa?» (pág. 3)

(…)

Passemos para a Outra Margem

«Penso muitas vezes na sugestão que Jesus faz aos discípulos, mais do que uma vez: ‘Passemos para a outra margem’ (Mc 4,35)

Há um sonho do qual não podemos desistir: o sonho de que a Igreja, em cada uma das suas comunidades, se pareça também com uma família alargada em gozo de férias, e não apenas a um laborioso centro de prestação de serviços, sobretudo se anónimo ou impessoal.

Nessas férias seria diferente! Saberíamos o nome uns dos outros e mais: daríamos tempo para saborear a história e a presença que cada um é. Não seria o relógio a presidir aos nossos encontros, nem a utilidade imediata a emprestar justificação às nossas procuras. Pelo contrário, estar em comunidade seria como caminhar junto ao mar, sem nenhuma pressão de horários (exteriores e interiores), entregues ao prazer da contemplação e da companhia. Ou como passear pela montanha, entusiasmados por visões alargadas onde a paisagem refulge numa transparência que quase havíamos esquecido.

Nessas férias seria diferente! Aboliríamos o rotineiro fast food religioso, que apenas serve para enganar a fome, deixando que a alma se alimente e revitalize como precisa: no silêncio e na palavra, no encontro e no dom, na escuta e na preço. Buscaríamos juntos, como peregrinos experimentados, a abundância ainda intacta das fontes que nos irrigam, sentindo-nos depois reconciliados e gratos pela fantástica vizinhança delas. E faríamos o mesmo com a beleza dos lírios, da qual Jesus falou, com o dourado apaziguador que podem ter os campos à nossa passagem ou com o canto dos pássaros cada vez mais alto.

Nessas férias seria diferente! A refeição constituiria o centro, mas como deliberado espaço de multiplicação para a vida: partilhando o pão que expande a graça, bebendo o vinho que amplia a festa.» (pág. 207)

320 págs. PVP: 15,90 euros

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