Fundamentos

Os Lugares Secretos do Eterno

«A imagem dos “lugares secretos” nos quais Deus “se esconde” para chorar pelo seu povo, põe em causa esta noção e obriga pelo contrário a pensar numa impotência de Deus em relação ao ser humano.»

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«Pela boca do profeta Jeremias, o Eterno alerta a Judá e a Israel – eleitos no entanto para serem o seu Povo, o timbre da sua honra e glória (Jer 13,11) – contra a sua profunda tentação de orgulho e a sua rejeição a escutar as suas palavras, entregando-se antes, sem escrúpulos, a satisfazer as suas próprias inclinações e a servir outros deuses. Ele adverte-os, e no entanto parece resignar-se a ser impotente diante da sua desobediência, já que acrescenta:

“E se não escutardes, em lugares secretos chorará a minha alma pela vossa arrogância e os meus olhos chorarão amargamente, porque o rebanho do Eterno terá sido capturado” (Jer 13,17).

Esta profecia relativa às lágrimas secretas do Eterno chamou muito a atenção dos sábios, que no Talmud perguntam-se como se há de compreender estas imagens.

Jeremias anuncia primeiro que a visão normal de uma história orientada pela aliança – e de Deus no coração desta história – ignora quase sempre o que ocultam os gritos dos homens esmagados na sua debilidade pelas desgraças vividas. Com efeito, quase sempre inclinam-se a crer que o sofrimento e a dor derivam da sua desobediência ou da sua infâmia. Imaginam assim a um Deus sem misericórdia, que tem o poder de infligir castigos aos seus justos quando estes desprezam os mandamentos.

Pois bem, a imagem dos “lugares secretos” nos quais Deus “se esconde” para chorar pelo seu povo, como diz o rabi Rashi no seu comentário, põe em causa esta noção e obriga pelo contrário a pensar numa impotência de Deus em relação ao ser humano – não o pode obrigar a escutá-l’O – e em relação às consequências terríveis que resultam das loucuras do ser humano, que o próprio Deus não pode impedir.

Mas esta imagem implica também, e de uma maneira ainda mais difícil, a renúncia à ideia de um Deus que viria a consolar aos homens na sua angústia e a aliviar os seus sofrimentos. Deus retira-se para um lugar onde ninguém O pode alcançar, e chora. Chora todos os dias, precisam os mestres no final deste comentário talmúdico à passagem de Jeremias.

A água das lágrimas divinas adquire aqui um estatuto extraordinário, pois converte-se no vínculo por excelência, muitas vezes o único que parece permanecer entre Deus e todos aqueles que, maltratados pela história, se aproximam já de uma agonia muda. Nem Jeremias nem os sábios se resignam ao aparente abandono da história pelo Criador, mas, forçados a admitir o espectáculo das tragédias frequentes que acompanham a temporalidade humana sem que Deus intervenha, colocam aqui as premissas de uma teologia de um retiro divino consagrado às lágrimas.

E esta imagem não tem apenas a vocação de reconfortar aqueles a quem rodeia o fulgor de uma dor sem testemunhas, levando-os a acreditar que Deus chora com eles, como também revela, mediante a escolha dos seus traços antropomórficos e a importância que lhes é concedida, o pressentimento, até a consciência, dos sábios de que a experiência humana das lágrimas secretas conduz o mais perto possível a uma verdade onde a semelhança do ser humano com o Criador se desliga das imagens que continuamente a aprisionam.»

Catherine Chalier, Tratado de las Lágrimas, Salamanca 2007, pág. 97ss

(trad./Adapt.: Fundamentos)

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