Fundamentos

Tempo Comum

Nos últimos dias, tenho apresentado por aqui excertos de alguns livros interessantes sob o título de ‘Tempo Comum’. É de facto este o nome do tempo litúrgico no qual nos encontramos, ou seja, do tempo que em Igreja celebramos. Com o Domingo de Pentecostes terminou o Tempo Pascal, e retomamos o Tempo Comum que se havia iniciado após o Natal e a Festa da Epifania ou Manifestação.

Comum, esta é a palavra-chave. Ao contrário do que acontece por exemplo no Natal ou na Páscoa, neste tempo não celebramos nenhuma dimensão especial do mistério de Jesus de Nazaré – e por isso, celebramos todo o seu Mistério, como referiu pela primeira vez Pio X.

Este é o Tempo da Vida de Jesus, da sua História, da sua Missão, de tudo o que viveu e construiu naqueles talvez três da Galileia do século primeiro. É talvez o Tempo do Reino. É o Tempo no qual descobrimos o significado da densa expressão que encontramos no livro dos Actos dos Apóstolos: «Sabeis o que ocorreu em toda a Judeia, a começar pela Galileia, depois do baptismo que João pregou: como Deus ungiu com o Espírito Santo e com o poder a Jesus de Nazaré, o qual andou de lugar em lugar, fazendo o bem e curando todos os que eram oprimidos pelo diabo, porque Deus estava com Ele.» (act 10,37-38).

É no Tempo Comum que celebramos e aprofundamos o que de comum teve a vida de Jesus, o que os Evangelhos nos transmitem e o muito que não nos transmitem, porque, como termina o Evangelho de João, «há ainda muitas outras coisas que Jesus fez. Se elas fossem escritas, uma por uma, penso que o mundo não teria espaço para os livros que se deveriam escrever» (Jo 21,25). É no Tempo Comum que descobrimos como a Pessoa de Jesus de Nazaré se foi moldando, nos caminhos do Espírito, se foi construíndo – como, no fundo, a Força da Ressurreição foi nascendo ‘desde o Princípio’.

É o Tempo das grandes decisões, isto é, das decisões quotidianas: o Tempo das Bem-Aventuranças e dos Ensinamentos; o Tempo das Parábolas; o Tempo do chamamento dos Discípulos e do seu Seguimento; o Tempo das Curas e da libertação sobre tudo o que desumaniza o ser humano; o Tempo da Liberdade diante das leis e dos templos; o Tempo em que o trigo é semeado e cresce, o trigo que depois dará o Pão Novo da Páscoa. É o Tempo do Reino, é o Tempo de Jesus de Nazaré.

É também o Tempo dos Discípulos: pena é que andemos tão distraídos neste Tempo, entre festas de catequese, férias, actividades pastorais, festas particulares. É o Tempo no qual escutamos os Evangelhos do Reino e nos revemos à sua luz, à luz dos seus critérios, das suas notícias, da sua força e da sua esperança. É o Tempo no qual, no quotidiano das nossas vidas e dos nossos dias, nos vamos construíndo como pessoas, no qual construímos as nossas relações, os nossos projectos, as nossas actividades. É no Tempo Comum das nossas vidas que acontece o principal. É no Tempo Comum das nossas vidas que acontece o nosso seguimento de Jesus de Nazaré, o nosso Discipulado, a nossa Conversão.

Porque é neste Tempo que Deus se faz presente – no quotidiano, no simples, no essencial. Por isso, é neste Tempo que celebramos a festa da Santíssima Trindade, do Rosto Familiar de Deus que se revela na história da Humanidade como Abertura, Comunhão, Salvação. Porque é em Jesus que a História se torna Comum a Deus e aos Homens. É em Jesus de Nazaré que o Comum se torna Eterno. É em Jesus de Nazaré que o Comum se torna Reino. E tudo isto, no muito Comum que têm tanto o tempo de Jesus como o nosso, a nível de injustiça, de sofrimento, de crise – cabe-nos, neste Tempo, descobrir esse Comum, e descobrir também o Comum do Reino. Boas Semanas!

Um livro que nunca deixa de merecer… F. Varillon, «A Mensagem de Jesus», ed. AO

«Proponho-vos uma espécie de mergulho no Evangelho para nele descobrirmos a liberdade de Jesus. Do mesmo modo que mergulhámos no Evangelho para nele descobrirmos a alegria, trata-se agora da liberdade. Trata-se de contemplar o rosto de um homem livre. Entramos cada vez mais neste conhecimento íntimo de Cristo. Ou mais exactamente, o Espírito Santo que está em nós abre-nos a porta, se assim se pode dizer, do espírito de Cristo. É o mesmo, o mesmo Espírito em Cristo e em nós (…)

‘Vamos para outro sítio!’ (Mc 1,35): a fuga ao amanhecer. Jesus partiu da casa onde habitava, provavelmente a de Simão Pedro. Ele partiu antes do amanhecer. E quando os apóstolos acordam, apercebem-se de que já não está com eles. Então põem-se à sua procura e acabam por encontrá-Lo. Dizem-Lhe: ‘Porque Te vais embora? Fica em Cafarnaum. Toda a gente Te ama muito, Tu tens com que viver, ouvintes, muitos ouvintes. Porque Te vais embora? Fica, volta, instala-Te aqui connosco!’

Olhemos bem, contemplemos o rosto de um homem livre. ‘Não há só Cafarnaum no mundo. Não fui feito para ficar em Cafarnaum. Não Me deixo apanhar por um lugar – poderíamos dizer uma paróquia, uma comunidade. É preciso que Eu vá a toda a Galileia e até às pequenas quintas isoladas no campo’. Portanto, liberdade em relação às classes, às raças, aos ambientes, aos bairrismos. Liberdade em relação a todos os particularismos locais. ‘Ele é o Salvador do mundo’, dizem os Samaritanos em João (4,42) (…)

‘Com as cortesãs e as pessoas de má vida’: em casa de Levi (isto é, Mateus) em Marcos 2,13-17. Jesus arrancou Mateus à cobrança de impostos, mas aceitou ir primeiro tomar uma refeição em sua casa. E ali está no meio de todo um conjunto de cortesãs, de publicanos, de pessoas de má vida. Naturalmente, os fariseus estão ali muito próximo e murmuram. Os fariseus murmuram: ‘Que faz Ele com as cortesãs e com as pessoas de má vida?’ Liberdade de Jesus: ‘Faço o meu trabalho de Salvador. Logo, estou com aqueles que é preciso salvar. O sábado é para o homem e não o homem para o Sábado’ (Mc 2,27). Liberdade em relação ‘ao que dirão as pessoas’. Dirão o que quiserem, Eu obedeço a meu Pai’. (…)»

Liberdade de Jesus: «Liberdade em relação à família segundo a carne; liberdade em relação às classes, às raças, aos lugares…; liberdade face ‘ao que dirão’; liberdade de novo em relação à família segundo a carne; liberdade em relação à glória humana; e finalmente e sobretudo, liberdade em relação à própria vida.» Liberdade de Jesus.     (págs. 279ss)

J. Murphy-O’Connor, «Jesus e Paulo: Vidas Paralelas», ed. Paulinas

«Temos agora de colocar a questão crucial: porque é que Jesus rejeitou a Lei, ao não pedir nada aos pecadores? Que factores o levaram a uma decisão que ia contra todo o endoutrinamento que recebera enquanto criança, que tinha interiorizado e apropriado enquanto pregador profético do arrependimento, juntamente com João Baptista? Ou, de modo mais específico, sob que condições é que Jesus teria sido forçado a admitir que um pecador era inocente e sem culpa, ao contrário do que a lei admitia?

A história da posse da terra, na Palestina, no século ou pouco tempo antes de Jesus, mostra uma inexorável absorção de pequenos proprietários individuais por parte dos grandes latifúndios. Uma pequena reflexão sobre a economia de uma quinta de camponeses tornará este processo mais compreensível. O proprietário e a sua família contribuem com o seu trabalho, enquanto que a terra os deverá prover com: comida suficiente que permita à família comer e trabalhar; forragem para o armazenamento; sementes para as plantações do ano seguinte; fundos em dinheiro ou em espécie que permitam a permuta ou a troca de géneros, de modo a satisfazer as necessidades que estão para além das capacidades da família, por exemplo, a contratação de um construtos ou de um serralheiro; recursos para celebrações especiais, por exemplo, nascimentos, mortes e casamentos; impostos religiosos e seculares.

A simples lista destas obrigações revela que o proprietário livre não tinha margem para erro. O mais pequeno aumento, em algum destes sectores, originava problemas sérios. A procura tendia a aumentar, enquanto que a base económica era fiza ou tendia a diminuir (…) O sistema de dupla taxação retirava, no mínimo, quarenta por cento da produção de um camponês, mas podia chegar aos cinquenta ou sessenta por cento. Para fazer face a um défice, em algum dos sectores, o camponês não tinha outra solução senão pedir emprestado. Isto significava um alívio temporário, mas, de facto, aumentava não só o fardo acrescido do pagamento da dívida como também o dos juros. Na falta de uma estação excepcional, que permitisse ao camponês pagar a sua dívida, era praticamente inevitável que ele não conseguisse cumprir os compromissos e que aquilo que dava como garantia seria confiscado pelo seu credor, nomeadamente tudo ou parte da sua terra, ou até ele mesmo, ou algum membro da sua família (…)

Com as suas aptidões, a melhor opção para um proprietário individual, que tivesse perdido a sua terra por causa do pagamento de uma dívida, seria arrendá-la. Isso dava-lhe a dignidade de gerir o seu próprio trabalho, mas o fardo de possuir uma terra – como o descrevemos antes – via-se agora aumentado com o encargo do aluguer. Se a renda era uma percentagem da produção, o senhorio tinha uma caução que permitia que ele sobrevivesse em tempos maus. Mas essa caução podia ser uma quantia fixa em dinheiro ou em produção, o que significava que, em qualquer dos casos, toda a vantagem estava do lado do senhor da terra, o qual apenas sofria nos anos maus, quando o rendeiro entrava em bancarrota. Mais uma vez, a dívida revelava o seu lado mais feio. Impossibilidade de pagar significava supressão.

O passo seguinte consistia no facto de que o camponês podia vender a sua força de trabalho, trabalhando à jornada nas grandes propriedades. Mas suponhamos que o único trabalho disponível era o de pastor. Um homem com uma família para alimentar, mas sem outra escolha, não se podia dar ao luxo de recusar um emprego que redundaria no facto de ele ser classificado como pecador Seria forçado a um estilo de vida que ele próprio não tinha escolhido. Como é que Jesus teria julgado uma pessoa deste género?» (págs. 108ss)

Arlindo de Magalhães, «Um Povo a Caminho II: Comunidade Cristã da Serra do Pilar», V.N. Gaia 1999, págs. 53ss

Hoje, no seu dia de aniversário, um Presbítero que merece ser citado; um texto longo, mas que me parece valer a pena:

«É impossível escrever uma biografia exacta de Jesus. Nem sequer sabemos ao certo quando e mesmo onde nasceu. Mas quem foi? Resolvida ou não a questão da sua historicidade – hoje praticamente admitida por todos – esta é a pergunta fundamental. De resto, daquilo que se depreende dos relatos evangélicos, o próprio Jesus só progressivamente se entendeu a ele próprio como senhor de uma missão especial, num processo que acompanhou o seu crescimento pessoal.

E os milagres? Os textos bíblicos nunca falam de milagres no sentido em que hoje se utiliza esta palavra. Os episódios relatados – quase todos referidos a curas – são acções que fogem ao normal e aparecem como extraordinárias. Mas, ao contrário do que sucedia no seu tempo em que muitos pregadores itinerantes teriam também capacidades taumatúrgicas, sempre que Jesus fazia um milagre, nunca quis com ele mostrar o seu poder, antes dar um sinal do perdão de Deus ou pôr um sinal do Reino que anunciava. Esta foi mesmo a grande notícia que anunciou: ‘Cumpriu-se o tempo e o Reino de Deus está próximo; convertei-vos e acreditai na Boa Nova (Mc 1,14-15).

Ao dar a primazia ao Reino, relativizou tudo o mais, afirmando perante tudo e todos a sua liberdade: frente ao dinheiro (Mt 6,25-33), à ambição de honra e poder (Jo 6,15), frente aos poderosos (Lc 13,31-33), para com os laços familiares (Mc 3,33-35), diante de qualquer grupo político ou religioso (Mt 22,24 e 23,13-32), frente à Lei (Mt 5,21ss), ao Templo (Jo 2,19), ou ao Sábado (Mc 2,27), ou frente ao culto formalista (Mt 5,23). Apesar de rodeado sempre por muita gente, precisava de se retirar para lugares solitários e amargou até ao fundo a solidão, como qualquer ser humano. Colocava-se, por isso, inteiramente, nas mãos de Deus a quem chamava Pai. Só Deus lhe saciava a sede profunda de comunicação.

De tudo isto, entretanto, acabaria por pagar a factura. Pretender implantar o Reino de Deus era uma ameaça feita ao velho mundo e seu estilo de vida. Grupos cuja inimizade era proverbial uniram-se então para lhe dar a morte, mesmo hipotecando coisas essenciais. Todos se confabularam contra o inocente: a morte de Jesus foi o preço da sua liberdade. Entre os discípulos surgiu o desânimo e a desilusão. (…)

Mas, a morte de Jesus na Cruz, que o havia tornado um maldito aos olhos de Deus (Gl 3,13), foi corrigida por Deus. Este é o conteúdo nuclear da pregação apostólica:´’Vós mataste-lo cravando-o na cruz, mas Deus ressuscitou-o (Act 2,23-24). A mensagem da Ressurreição revela algo de completamente inesperado: apesar das aparências, o Crucificado tinha razão. Ele era Filho de Deus e não há agora quem detenha o crescimento do Reino. A Ressurreição de Jesus permitiu a resposta às perguntas angustiantes: que sentido tem dar a vida pelo outro?, ou simplesmente para quê viver se havemos de morrer?

Posso ler o testemunho de um jornalista guatemalteco ameaçado de morte no meio das perturbações endémicas do seu país e do seu continente?

‘Dizem que estou ameaçado de morte. Talvez. Seja como for, estou tranquilo porque, se me matarem, não me tirarão a vida, eu levá-la-ei comigo, aos ombros, como o pastor o seu bornal. A quem se mata podem tirar-se-lhe  tudo previamente, como hoje se faz tantas vezes: os dedos das mãos, a língua, a cabeça. Pode queimar-se-lhe o corpo com cigarros, podem-no cortar, partir, destroçar, mesmo fazer carne picada. Pode fazer-se-lhe tudo. Quem me lê comover-se-á profundamente, e com razão. Eu já não me comovo grande coisa, porque desde pequeno que Alguém soprou aos meus ouvidos uma verdade firmíssima que é, ao mesmo tempo, um convite de eternidade: Não temais os que podem matar o corpo mas não tirar a vida.

A vida, a verdadeira vida, fortaleceu-se em mim quando, através de Teilhard de Chardin, aprendi a ler o Evangelho: o processo de Ressurreição começa com a primeira ruga que se nos desenha na cara; com a primeira marca de velhice que nos aparece nas mãos; com o primeiro cabelo branco que descobrimos na cabeça, um dia qualquer, ao pentear-nos; com o primeiro suspiro de nostalgia por um mundo de que nos desligamos e que começa a fugir-nos. Começa assim a Ressurreição. Começa assim essa coisa tão incerta a que chamamos a ‘outra vida’ mas que, na realidade, mais que ‘outra vida’ é uma vida ‘outra’.

Dizem que estou ameaçado de morte. Da morte corporal, a que Francisco tanto amou. Quem não está ameaçado de morte? Estamo-lo todos, desde que nascemos. Porque nascer é um pouco sepultarmo-nos também. Ameaçado de morte? E daí? Se assim for, perdoo-lhes antecipadamente. Que a minha Cruz seja uma perfeita geometria de amor, desde que eu possa continuar a amar, falando, escrevendo e ajudando a sorrir, de vez em quando, os homens meus irmãos.

Que estou ameaçado de morte! Há neste aviso um erro de conceito. Nem eu nem ninguém está ameaçado de morte. Está tudo equivocado. Os cristãos não estão ameaçados de morte. Estamos ameaçados é de Ressurreição, porque, para além de Caminho e de Verdade, Ele é a Vida, mesmo que esta seja crucificada na grande lixeira do Mundo’ (Calderon Salazar, 1978).

A grande pergunta dos cristãos: Quem dizem os homens que eu sou?»

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