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Indícios: à escuta dos traços de Deus
João Paulo Costa | UCE | 190 páginas

João Paulo Costa é presbítero e professor na faculdade de teologia na arquidiocese de Braga; no seu percurso pastoral destacam-se os artigos publicados no site do secretariado de pastoral da cultura (www.snpcultura.org) e a organização regular em Braga de ciclos de cinema orientados no sentido de refletir o mistério do ser humano e a sua abertura ao transcendente.

Nesta obra, publicada agora pela chancela da Universidade Católica, são-nos possibilitados temas de reflexão sobre a presença dos indícios de Deus na cultura humana, segundo a perspetiva fundamental de que, pela Encarnação – o mistério de Deus que encarna na Humanidade, que se faz presente ao ser humano em Cristo – o Espírito está presente não só nas práticas religiosas e nas estruturas eclesiais, mas também onde quer que o ser humano busque o mistério de Deus, na arte, na cultura, no pensamento. O autor vinca a dimensão corporal/carnal da experiência de fé cristã, nas manifestações da vida humana como vida de relações, expressões, sinais, traços; o encontro do crente com as artes, a poesia, a literatura, o cinema ou a pintura – mesmo que não tenham uma finalidade ou motivo religiosos – contribuem para descobrir as interrogações dos nossos contemporâneos.

A obra divide-se em três partes: uma inicial, designada por ‘Impressões’, na qual o autor algumas perspetivas sobre os mistérios nucleares da fé cristã – a revelação de Deus, Cristo, a fé como confiança, o ser humano enquanto corpo de afetos e comunhão; numa segunda parte, a maior, com o título ‘Visões’, propõe ecos ressoados a partir de obras de cinema (sobretudo cinema europeu, pouco presente nos circuitos comerciais), nos quais se refletem os passos, passagens e dramas da vida humana; finalmente, com o título de ‘Reinscrições’, são-nos propostos ecos de leitura de obras literárias, desde a poesia ao romance, onde muitas vezes as angústias de uma ausência de Deus são pistas e espaços abertos para o evento da Graça.


«Se o cristianismo é ainda um corpo vivente, ele é-o essencialmente por meio do paradoxo, que torna profundamente significativo o existir e a culturalidade humana. O cristianismo em si mesmo, paradoxo dos paradoxos, faz pensar e dá que pensar. Seria um retrocesso histórico e cultural voltar a considerar que tudo o que não fale dogmaticamente de Deus é necessariamente contra Deus ou a reduzir toda a filosofia/arte/ciência não-teísta à negação das verdades reveladas. Há uma verdade intrínseca a cada interioridade humana, a cada linguagem, expressão, gestualidade ou tonalidade não redutível apenas à modalidade do crer religioso explícito. É nesta simbiose crítico-dialógica de interação refletida entre cultura e cristianismo que o logos fenoménico e escriturístico poderão adquirir uma espessura corpórea e dar sentido a uma nova inteligibilidade do mundo.

O pinto Paul Klee, no seu belo livro Escritos sobre arte (“O credo do criador”), escrevia que a “arte não reproduz o visível, torna visível” o invisível, por mais perto ou longínquo que ele se manifeste. Do mesmo modo que Cristo, o ícone visível, dá a conhecer Deus porque a Ele jamais alguém o viu (cf. Jo 1,18), o homem religioso não pode ter a pretensão da revelação absoluta de Deus em suas manifestações cultuais ou culturais. O verdadeiro “drama” de hoje não será o do ateísmo, mas a impureza ideológica de um teísmo desencarnado a roçar a um certo angelismo puritano. O Deus cristão, incarnado e crucificado, não pensa o mundo, habita-o, e assume as nossas feridas e ambiguidades transfigurando-as. É, nesse sentido, pertinente a expressão de Blaise Pascal, nos seus famosos Pensées, quando escrevia que “o homem não é nem anjo nem besta, mas quem quer ser anjo, acaba por ser besta”.

Reconhecendo os limites do nosso campo de visão – sempre relativo a um espaço-tempo cultural –, este breve ensaio apresentará apenas alguns indícios declinados em impressões, visões e reinscrições. Aparições convergentes de um mesmo fenómeno, do humano em sua transcendência, filosofia, teologia e arte nutrem-se mutuamente sem se confundirem. A questão que se coloca é a de saber se poderemos dar crédito a esses indícios que aparecem e se eles são passíveis de qualquer ato de credulidade religiosa. Em sociedades abertas onde o respeito pela dignidade do próximo é a matriz ética de todo o corpo comunitário, juridicamente, os indícios constituem per si a condição inicial fundamental para um processo justo. Ao mesmo tempo, os indícios significam que algo se dá e advém até nós (passagem de uma metafísica da transparência absoluta a uma fenomenologia do dom inaparente), independentemente da opera- ção que verifica a sua veracidade ou falsidade.

Nesse sentido, não será que o exercício da auscultação atenta aos indícios ou aos “rumores” da transcendência na cultura contemporânea é já sinal e presença de uma alteridade que nos alcança como evento inesperado? Não será o humano contemporâneo ainda um “ouvinte da Palavra”, na feliz expressão do teólogo católico Karl Rahner? Se assim é, de que modo se manifestam ao “olho que escuta” (Paul Claudel) os rumores de Deus? Radicalizando um pouco a questão, será que a visão sentida das coisas não se dará essencialmente de modo perfilado? Em cada perceção ou experiência sensível não vemos nem alcançamos tudo com um só olhar. Como escreve Jean Greisch, no seu livro programático L’âge herméneutique de la raison: “Tanto no encontro do texto, como na experiência da filosofia, da arte e da história, uma verdade se manifesta, chega uma verdade, uma verdade se impõe”, à espera de ser hospedada e compreendida. Mesmo se não vemos a coisa em si mesma, a coisa mesma dá-se-nos a ver em relação íntima com quem vê e como vê ou pressente o sentido que nesse evento de graça se prefigura.»

Para ver mais: Prelúdio e Índice

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