
O Nome daquele que não tem nome
Kabir | ed. Assírio&Alvim | 91 páginas
Não se sabe muito da vida deste poeta e místico, que terá vivido na Índia na primeira metade do século XV; mas os seus poemas – traduzidos para português pelo também poeta Jorge Sousa Braga – transportam-nos, através das breves palavras de uma oração, para um encontro com o Mistério que, nas nossas palavras, acaba sempre por as ultrapassar. Porque a poesia também pode ser oração.
«Como aprender a conhecer o amado? / Jamais o encontrarás no bosque / se não conheces a árvore / Jamais o encontrarás / se o procuras em abstracções»
Kabir vive no cruzamento de duas religiões nem sempre em convívio pacífico: o hinduísmo e o islão. No encontro com estes dois mundos, Kabir aponta para o Mistério de Deus que não pode ser fonte de conflitos, porque está sempre para lá – é o significado da palavra transcendente – dos sistemas e convicções religiosas. O caminho para a paz e a fraternidade passa também pelo aceitar de que a nossa experiência e conhecimento de Deus é sempre frágil e fugaz, e que o primeiro lugar de presença de Deus está no irmão, no ser humano.
«Estará Alá na Mesquita / ou Rama na imagem que adoras? / E fora da Mesquita / e onde não há imagens? / Hari a oriente Alá a ocidente / Em todos os homens / e todas as mulheres / e no teu coração»
A poesia de Kabir está permeada de uma linguagem afetiva, de amor, na procura do Outro; aqui a natureza constitui um sinal, no silêncio da contemplação atenta. A linguagem de Kabir recorda-nos outros místicos – estes cristãos – que, na linguagem conjugal presente na Bíblia (o Cântico dos Cânticos é o melhor exemplo) não deixaram de abrir caminhos de oração a que todos os cristãos podem aceder. Perceber que, na nossa vida em Deus, a única distância existente é a levantada pelos nossos juízos, violências e ruturas.
«Será que me procuras? / Estou sentado a teu lado / o meu ombro toca o teu… / Não me procures no templo / ou na mesquita tão-pouco / nos rituais ou na renúncia / Se realmente me procuras / mais cedo ou mais tarde / encontrar-me-ás / Sou eu que respiro / quando respiras».
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