«A génese do jejum – enquanto movimento de desapropriação – não é alheia ao desejo de que o pão seja, efetivamente, para todos». Sobre o jejum, por Carlos Maria Antunes (via SNPC).

Seria demasiado ambicioso, e até mesmo irrealista, pensar que através da prática do jejum se poderia solucionar o problema da fome no mundo. Contudo, a génese do jejum – enquanto movimento de desapropriação – não é alheia ao desejo de que o pão seja, efetivamente, para todos. Importa considerar que este instrumento da vida espiritual, no contexto do Cristianismo, sempre esteve em relação com a partilha.
O Pastor de Hermas – texto da era pós-apostólica, cerca do ano 150, diz: «No dia do teu jejum, não tomarás mais que pão e água; depois deverás avaliar o montante da despesa que terias feito nesse dia com a tua comida e dá-lo-ás a uma viúva, a um órfão ou a um necessitado. Assim tu te privarás, para que outro possa usufruir da tua abstinência».
Esta mesma perspetiva também estava presente entre os primeiros monges. Encontramos nos ensinamentos dos Padres do Deserto: «Diz o abade Paládio: No dia em que jejues, contenta-te com pão, água e legumes, e dá graças. Calcula a despesa da comida que economizaste jejuando, e dá o valor a um pobre estrangeiro, a uma viúva ou a um órfão» .
Também Santo Agostinho, fazendo eco do capítulo 25 do Evangelho de Mateus, exorta: «É o próprio Cristo que tem fome; que Ele receba, então, o que o cristão se privou por causa do seujejum. Que a voluntária privação do rico se torne a abundância necessária do pobre».
Obviamente que o que está aqui em causa não é um cálculo matemático, mas, isso sim, o espírito que deve animar a prática do jejum como expressão de solidariedade. Estes breves textos, citados a título de exemplo, recordam-nos que o jejum cristão nunca esteve desvinculado da relação, privilegiando uma especial atenção ao mais pobre.
Não se trata da partilha do que me sobra, mas daquilo que é fundamental para a manutenção da vida. O jejum, enquanto experiência sentida no corpo, toca zonas muito profundas da existência. Abre-nos, por isso, ao que pode ser o sentido mais autêntico da solidariedade. A minha carência aproxima-me do outro na sua carência. Só o homem ou a mulher pobre que existe em mim pode encontrar o outro na sua pobreza.
O jejum não induz em mim uma experiência artificial, ao contrário: cria um espaço que amplia a capacidade de visão, liberta-me da irrealidade das máscaras, permitindo um encontro com a minha nudez. O que é artificial é viver na ausência de contacto com o que efetivamente somos. O encontro com o outro, e o outro que é pobre, convoca-me para o encontro com a minha pobreza. O jejum é um instrumento possível ao serviço de um olhar mais consciente sobre nós próprios. O mesmo se pode dizer da oração, das vigílias e de outros instrumentos da arte espiritual: estão ao serviço de um despertar interior. Desbravam caminhos.
Acompanha-nos a ilusão de que não somos tão pobres como o outro. É verdade que podemos ter acesso a bens que outros não têm. A história da Igreja – e não só – também está tecida por muitas iniciativas e muitos movimentos no sentido de superar esta desigualdade. Há uma utopia que o Evangelho suscita. No entanto, a relação autêntica com o outro, que implica a partilha dos bens num âmbito mais amplo que é a partilha da própria vida, exige de cada um de nós o reconhecimento da própria pobreza.
A relação fraterna pede um olhar simétrico, que permite o encontro onde nos reconhecemos seres humanos que, fundamentalmente, são iguais e partilham uma história comum. Sem este olhar não há nenhuma ideologia, por mais generosa que seja, que me permita aproximar-me do outro. Só me posso aproximar do outro no reconhecimento que partilho com ele a mesma situação existencial. E isto é radicalmente assim. Não me faço irmão do outro; descubro-me irmão do outro. (…)
O profeta Isaías tem um texto sobre o jejum, a que sempre se dá muito relevo – e ainda bem -, principalmente no tempo da Quaresma. Trata-se de um texto central para o seu entendimento, mas também, e paradoxalmente, porque lido muitas vezes de uma forma redutora, tem servido para desvalorizar o jejum.
«O jejum que me agrada é este: libertar os que foram presos injustamente, livrá-los do jugo que levam às costas, pôr em liberdade os oprimidos, quebrar toda a espécie de opressão, repartir o teu pão com os esfomeados, dar abrigo aos infelizes sem casa, atender e vestir os nus e não desprezar o teu irmão» (Is 58,6-7). (…)
A denúncia do profeta, que aparece logo desde o início do capítulo 58, é a de um culto a Deus desvinculado da prática da justiça e da caridade. Nesse culto, também está presente o jejum. Já vimos que a prática do jejum como cumprimento externo de uma norma religiosa não faz sentido. O jejum está sempre em função da relação, da abertura de um espaço para o encontro com Deus e com o outro, está intimamente relacionado com o criar condições para uma oração mais intensa e para o cultivo de uma maior sensibilidade face à carência do outro nas suas expressões multifacetadas. O jejum é uma estrada que se abre para a compaixão.
O que pode ser redutor, na leitura deste texto, é a identificação exclusiva do jejum com uma prática exterior que exime o sujeito de uma experiência vinculada à sua própria interioridade. Poderei libertar o outro do seu jugo e da sua opressão sem ser a par de uma pessoal experiência que me torne tendencialmente mais livre? Será possível exercer um cuidado em relação aos que nada têm, quando não experimento a autolimitação em relação ao exercício da posse? Na prática do jejum não é possível desvincular uma práxis política (entendida no seu mais amplo sentido) de uma disponibilidade para a conversão pessoal.
Isaías enfatiza o que é central na prática do jejum: que haja uma deslocação do eu para o nós; que não sejam as minhas necessidades que me cerquem o coração, mas que seja o outro na sua carência que convoque a minha carência e polarize o meu agir numa história comum de libertação. É nesta deslocação que ganham sentido as palavras de Jesus quando nos convida a perder a vida como condição do seu seguimento. «Se alguém quer vir após mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz, dia após dia, e siga-me. Pois, quem quiser salvar a sua vida há de perdê-la; mas, quem perder a sua vida por minha causa há de salvá-la» (Lucas 9,23-24).
Perder a vida, no seguimento de Jesus, é condição para ver a Deus. Paixão por Deus e compaixão estão reciprocamente vinculadas, como tão bem o exprime o teólogo J. Baptist Metz, numa expressão que certamente ficará na história da teologia do século XX: «mística dos olhos abertos».
Carlos Maria Antunes In Só o pobre se faz pão, ed. Paulinas, Lisboa 2013 (via SNPC)
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