“O amor ao próximo, que sabemos ser o mesmo amor, é feito da mesma substância. Os infelizes não precisam de outra coisa neste mundo que de homens capazes de lhes prestarem atenção”.
Simone Weil nasceu em Paris em 1909. Oriunda de uma família judía, foi estudante de filosofia, onde teve a Simone de Beauvoir como colega, tornando-se professora no ensino secundário. Exerceu uma notável actividade política durante a década de 30, tendo recebido na casa dos seus pais o fundador do Exército Vermelho, e opositor a Stalin, León Trotsky; no encontro com este, referiu que a elite burocrática comunista pode ser tão opressora como a elite capitalista. Participou activamente na luta sindical, tendo durante o ano de 1934 interrompido o seu trabalho como professora para ingressar nas fábricas da Renault como operária, afim de melhor conhecer a vida dos operários franceses. Participou brevemente na Guerra Civil de Espanha, no lado Republicano.
De férias em Portugal, no verão de 1935, Simone Weil descreve um acontecimento que presenciou nas praias da Póvoa de Varzim. Aí encontrou uma procissão de mulheres de pescadores, vestidas de preto, que entoavam cânticos de luto em torno a Nossa Senhora pelo regresso do mar dos seus maridos. Simone Weil refere que foi nesse momento que percebeu que o cristianismo é verdadeiramente a religião dos pobres e para os pobres, e foi aí que iniciou a sua aproximação à Igreja. Deixou numerosos escritos, com comentários sobre o Pai-Nosso, sobre a possibilidade da oração, sobre os sacramentos. No entanto, nunca aceitou ser baptizada, pois considerava-se indigna.
Durante a II Guerra Mundial pertenceu à Resistência Francesa, tendo partido para Inglaterra. Aí morreu em 1943, já doente de tuberculose, vítima de ataque cardíaco. Os seguintes excertos são retirados da versão portuguesa do livro “Espera de Deus” (Lisboa 2009). O poema, pertence a uma edição do Apostolado da Oração, de 1992, de algumas citações de Simone Weil, com o título “À Porta do Farol faz Escuro”.
(…)
«Apenas esta espera, esta atenção (do escravo que, enquanto o seu amo se encontra numa festa, vela e escuta perto da porta para a abrir logo que oiça bater) pode obrigar o mestre a um tal excesso de ternura, servindo-lhe ele mesmo de comer. Quando o escravo se consumiu de cansaço no campo, o mestre ao regressar diz-lhe: “Prepara o meu repasto e serve-me”. E trata-o como escravo inútil que faz apenas o que se lhe ordena.
Bem certo que no domínio da acção é necessário fazer tudo o que é ordenado, à custa de não importa que grau de esforço, de cansaço e de sofrimento, porque aquele que desobedece não ama. Mas, depois disto, não se é mais do que um escravo inútil. É uma condição do amor, mas não é suficiente. O que força o mestre a fazer-se escravo do seu escravo, a amá-lo, não é nada disso; não é, ainda menos, uma busca que o escravo tivesse a temeridade de empreender por sua própria iniciativa; é unicamente a vigília, a espera e a atenção (…)
Não é apenas o amor a Deus que tem por substância a atenção. O amor ao próximo, que sabemos ser o mesmo amor, é feito da mesma substância. Os infelizes não precisam de outra coisa neste mundo que de homens capazes de lhes prestarem atenção. A capacidade de prestar atenção a um infeliz é uma coisa muito rara, muito difícil; é quase um milagre, é um milagre. Quase todos os que crêem ter esta capacidade não a têm. O calor, o ímpeto do coração, a piedade não são suficientes.
Na primeira lenda do Graal, diz-se que o Graal, pedra miraculosa que por virtude da hóstia consagrada sacia toda a fome, pertence a quem primeiramente disser ao guardião da pedra, rei paralisado em três quartos pela mais dolorosa ferida: “Qual é o teu tormento?”
A plenitude do amor ao próximo é simplesmente ser capaz de lhe perguntar: “Qual é o teu tormento?” É saber que o infeliz existe, não como unidade numa colecção, não como um exemplar da categoria social etiquetada “infelizes”, mas enquanto homem exactamente semelhante a nós, que foi um dia atingido e marcado com uma marca inimitável pela infelicidade. Para isso é suficiente, mas indispensável, saber pousar sobre ele um certo olhar.
Este olhar é em primeiro lugar um olhar atento, em que a alma se esvazia de todo o conteúdo próprio para receber nela mesma o ser que olha tal como ele é, em toda a sua verdade. Disto só é capaz aquele que é capaz de atenção.»
(…)
«O desejo, orientado para Deus, é a única força capaz de fazer elevar a alma. Ou melhor, apenas Deus vem apoderar-se da alma e a eleva, mas apenas o desejo obriga Deus a descer. Ele não vem senão para os que lhe pedem que venha, e para aqueles que pedem frequentemente, prolongada, ardentemente, Ele não pode impedir-se de descer.»
(…)
Deus é fraco
porque é imparcial.
Manda os raios do sol
e a chuva
tanto sobre os bons
como sobre os maus.
Esta indiferença do Pai
e a fraqueza de Cristo
correspondem-se.
Ausência de Deus.
O Reino dos Céus
é como um grão de mortarda…
Deus não muda
nada de nada.
Mataram a Cristo,
furiosos, porque Ele
era apenas Deus.
Ver mais: Obras de Simone Weil
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