Fundamentos

Amou, pois, com ternura

11899881_737769086366501_3053431608971155011_n

Enrique Díez, “Desierto-Oración”, Monasterio de Sobrado, Galiza

Para este início de Quaresma, um excerto de um sermão de Bernardo de Claraval, monge cisterciense francês do século XII e doutor da Igreja, sobre o Cântico dos Cânticos. O excerto é retirado do sermão XX. Boas leituras e bom caminho para a Páscoa.


 

Orienta para ti, Senhor, este pequeno ser que tiveste por bem constituir; e desta vida cheia de misérias eu te peço que acolhas o que resta dos meus anos; e por aqueles anos que perdi até agora por ter vivido perdidamente, não desprezes, ó Deus, um coração contrito e humilhado (Sal 50,19).

Os meus dias se alongaram como uma sombra (Sal 101, 12), e decorreram sem qualquer fruto. É impossível voltar a vivê-los; seja do teu agrado que os recorde diante de ti com amargura na minha alma (Is 38,15).

Agindo com sabedoria – diante de ti está todo o meu desejo (Sal 37,10) e o sentido do meu coração – se é que tinha alguma, a orientei para ti. Mas tu, oh Deus, conheces a minha ignorância, ainda que, porventura, o mero facto de a reconhecer seja já um indício de sabedoria e eu, por dom teu, a reconheço. Aumenta a minha sabedoria; não serei ingrato mesmo que a aumentes um pouco, mas estarei atento para adquirir a que me falta. Por tudo isto eu te amo quanto posso.

Mas há algo que me move mais, me apressa mais e me anima mais a amar-te. O que de mais amável encontro em ti, oh bom Jesus, é o cálice que bebeste, a obra da nossa redenção. É isto que, sem qualquer dúvida, atrai todo o nosso amor para ti; é isto que anima a nossa devoção com maior doçura, a exige com mais justiça, a sujeita com mais rigor e a afecta com mais veemência.

Nisto trabalhou muito o Salvador; nem o Criador se fatigou tanto na criação de todo o universo, pois para criar todos os seres ele falou e eles existiram; ele ordenou e eles surgiram (Sal 32,9). Por outro lado, o Salvador, nas suas palavras, teve de suportar opositores; nas suas obras, espiões; nos seus tormentos, burlões; e na morte, reprovadores.

Olha como amou. E tem em conta que este grande amor não foi uma dívida mas uma doação, pois ‘quem lhe deu por primeiro para que ele o devolva?’ (Rom 11,35). Como diz S. João Evangelista, ‘não fomos nós que amamos a Deus, mas foi ele que nos amou primeiro’ (1Jo 4,10).

Amou inclusive aqueles que ainda não existiam; e, mais ainda, amou também aos que rejeitavam o seu amor, segundo o testemunho de Paulo que diz: ‘sendo inimigos, a morte de seu Filho nos reconciliou com Deus ‘ (Rom 5,10).

Se não fosse o ter amado os pecadores, todavia não teria amigos, do mesmo modo que não existiriam aqueles que tanto amou, se não fosse por os ter amado quando ainda não existiam.

Amou, pois, com ternura, com sabedoria e com fortaleza. Disse ‘com ternura’, porque se fez carne; ‘com sabedoria’, porque viveu livre de culpa; ‘com fortaleza’, porque enfrentou a morte.

Deixe um comentário

@wpshower

Feeds

Susbscribe to our awesome Blog Feed or Comments Feed