Que terá para nos dizer, hoje, o Evangelho de Marcos? Que sentido tem proclamarmos, escutarmos, todas as semanas este texto, a que Marcos chamou de “Evangelho”?
“Evangelho” significa “boa notícia” em grego, a língua na qual o Novo Testamento foi escrito, há cerca de dois mil anos. É sobre este Evangelho que António Couto, bispo de Lamego, dedica este livro. Trata-se de uma obra de introdução à leitura do Evangelho, que surge colada ao texto de Marcos, seguindo-o a par e passo.
Em primeiro lugar, surge a pergunta: o que é um “Evangelho”? Temos por vezes a ideia de que o Evangelho (seja o de Marcos ou de Mateus, Lucas ou João) é um “texto sagrado”, religioso, limitado apenas ao âmbito da piedade, da liturgia ou da catequese. Outras vezes, pensamos num Evangelho como uma biografia, uma história de Jesus, que se limita a contar factos e histórias da vida do Nazareno. Sobre este assunto, refere António Couto:
O termo Evangelho encontra-se várias vezes no Novo Testamento, sobretudo em Paulo, mas só Marcos o usa como título. O que é que se entende, neste caso, por Evangelho? Seguramente não é uma carta, um tratado, um catecismo, mas uma narração que põe em cena um protagonista em grande destaque. Este protagonista é Jesus.
Um Evangelho é uma narração na qual o autor – neste caso, Marcos – nos coloca na pele das personagens, para nos encontrarmos com o protagonista: Jesus. Assim, quando Pedro fala a Jesus, quando as Mulheres vão ao sepulcro, quando os Discípulos não entendem o que Jesus diz ou faz, quando o Cego de Jericó grita por graça, quando o homem rico se afasta… somos todos que ali estamos envolvidos, são os cristãos de todas as épocas – seja a época de Marcos, seja a nossa – que nos encontramos em cada passagem.
Quando o Evangelho de Marcos foi elaborado (cerca de 30 a 40 anos depois da Páscoa de Jesus, nos anos 60 a 70 d.C.), havia já comunidades cristãs espalhadas pelo mundo romano de então – Palestina, Grécia, Roma… Muitas dessas comunidades haviam sido fundadas por Paulo, e tinham já entre si as Cartas escritas pelo Apóstolo. Os cristãos eram minoritários no império, e sofriam incompreensões e perseguições por parte do ambiente que os rodeia; por isso, o Evangelho de Marcos é um texto escrito, pensado para os discípulos de Jesus, para o seu caminho de encontro com o Ressuscitado, sobretudo num tempo de crise e dificuldades.
Todo o Evangelho de Marcos é percorrido por uma pergunta fundamental: quem é Jesus? Ou, de outro modo: como se diz Jesus? Descobrimos aqui que a resposta para esta pergunta não nos é dada por uma fórmula, um discurso, um catecismo: a resposta é um caminho. Só se nos tornarmos discípulos de Jesus, num caminho de vida e de encontro com o Ressuscitado, é que poderemos encontrar a resposta a esta pergunta. Quando Pedro responde a Jesus afirmando “Tu és o Cristo, o Filho de Deus Vivo”, Pedro está ainda a meio do caminho. Refere António Couto:
Trata-se de impedir que respostas, porventura certas nas palavras, mas erradas nos conteúdos, e elaboradas apenas com base em elementos convencionais e tradicionais, que não implicam um verdadeiro dizer pessoal, um novo nascimento do alto e do Espírito, sejam transmitidas boicotando assim o nascimento do conhecimento profundo e verdadeiro da novidade de Jesus e a implicação pessoal de quem diz Jesus e se diz face a Jesus.
Da procura da identidade de Jesus surge, colada, outra pergunta: quem é o discípulo de Jesus? Como tornar-se discípulo de Jesus? É no Caminho, com Jesus, atrás de Jesus, que surge progressivamente a resposta a esta pergunta.
Trata-se, no fundo, de retirar o texto do Evangelho dos lugares onde o temos encerrado – seja do ambão da Igreja, da sala de catequese ou da prateleira lá de casa – e colocá-lo nas mãos do cristão e das comunidades, para que o possam ler, escutar, meditar. Cada leitor pode fazê-lo, seja qual for a sua formação, a sua profissão, a sua história. Certamente que encontrará, ao longo das páginas de Marcos, um sentido, uma pergunta, uma compreensão ou uma incompreensão.
É este texto fortíssimo (de Marcos), que não pretende apenas informar, mas sobretudo persuadir em tempos de crise, e que, por isso mesmo, ganha em ser lido em voz alta, que agora entrego ao leitor.
E é aqui que poderá ter lugar, também, o precioso contributo de António Couto. Trata-se de um livro para se ler passo a passo, com o texto do Evangelho de Marcos, um pouco de cada vez, durante uma semana, um mês ou um ano. O leitor o saberá.
António Couto, Introdução ao Evangelho segundo Marcos, Paulus 2015, 136 págs.
(Artigo publicado na edição de Março do Mensageiro de Santo António)
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