Fundamentos

O meu Deus é um Deus ferido

«Neste livro, o leitor não encontra instruções para a cura das feridas do nosso mundo»: o sofrimento, a fé e a história são o mote para um novo livro de T. Halík publicado em Portugal.

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O Meu Deus é um Deus Ferido
Tomás Halík
Paulinas Editora | 2015 | 237páginas

O episódio do encontro do Ressuscitado com Tomé, no Evangelho de João, constitui o mote para mais uma obra do teólogo checo Tomás Halík a ser publicada em Portugal. A dor, o sofrimento, as feridas da História, da Humanidade, as nossas feridas e as feridas daqueles com quem nos encontramos e, finalmente, as feridas de Deus (um paradoxo!) são o objecto de reflexão neste livro. A escrita do autor apresenta-se em forma de breves capítulos, meditações desenvolvidas a partir da sua experiência pessoal e pastoral, permitindo-nos uma leitura acessível em torno a temáticas profundas e difíceis.

Quando o Ressuscitado se apresenta a Tomé, não se apresenta como uma luz brilhante, fulgurante, esplendorosa; o Ressuscitado apresenta as suas Feridas. E é aí, nesse momento, que surge a profissão de fé de Tomé: “Meu Senhor e meu Deus”. As Feridas – todas as dimensões de sofrimento que marcam a nossa vida – têm o seu lugar no próprio mistério de Jesus. Daí que o primeiro passo do discípulo para a Fé – a exemplo de Tomé – esteja no olhar, no aceitar, no compadecer-se diante das feridas e do sofrimento, quando a reacção instintiva nos leva à recusa, ao desviar o olhar, à fuga.

«Neste livro – refere o autor – o leitor não encontra instruções para a cura das feridas do nosso mundo; é que sempre nutri uma desconfiança muito pronunciada perante todas as receitas de salvação. Se estas considerações hão de servir para alguma coisa, será para intimar à não-indiferença, à coragem de ver.»

A obra de Tomás Halík propõe um conjunto de meditações em torno a temas como a humanidade de Jesus, o modo como a nossa sociedade lida com a morte, o perdão, a angústia no sofrimento, o “grito” diante de Deus (e o ateísmo), e até as próprias limitações da Igreja. Todas essas experiências são, para o Autor, lugares onde a nossa fé é testada, vivida e, Deus queira, aprofundada. Não se trata de elogiar o sofrimento por si: todo o livro é um apelo a entregar-se na libertação de todas as escravidões. Trata-se, sim, de dar o primeiro passo: olhar, tocar as feridas.

Texto publicado na edição de Maio do Mensageiro de Santo António

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