
Macha Chmakoff
A narrativa de João 8,1-11 é de um incomparável vigor. No final do capítulo precedente deparamo-nos com um turbilhão de opiniões teológicas sobre ele, sentenças que se contradizem, julgam, golpeiam, mas que permanecem abstractas, pretendem capturar os despojos mas alcançam apenas o vazio. Gente sem presença, sem carne, sem piedade, como todos nós.
E, finalmente, prendem uma vítima, uma mulher adúltera, que serve de justificação para os seus preconceitos e de armadilha para o Mestre. E ele abaixa-se, por vergonha ou por distinção, quem o sabe? Fecha-se num silêncio – embaraçado ou majestoso? – , baricentro taciturno no olho do ciclone, uma paz e uma calma perigosas e plenas de promessas. Talvez se recolha para o centro da sua missão e identidade, talvez se retire em si mesmo, talvez antecipe já o seu destino de morte que brotará deste impacto com a lei e a arrogância dos escribas e teólogos.
Mas depois endireita-se e emite a sua sentença, sem condenar. Reporta somente cada um a si mesmo, à solidão da sua sorte – e inclina-se de novo, por pudor, sob o peso da culpa dos que o rodeiam, ou por respeito, sob a vontade do Pai… quem o sabe?
E depois ergue-se, desponta a alva do primeiro dia da criação, a juventude e bondade do olhar límpido do criador, revivendo o espanto primordial do homem diante do evento da nova geração: “Mulher, ninguém te condenou?”: gesto sacramental. Deus nem sequer é referido, e no entanto é presente, a atmosfera é prenhe, invadida do poder espiritual que se transmite na autoridade de um gesto que se dilata entre o céu e a terra, entre os fariseus e a mulher, forte e desarmada. Um corpo que atravessa a multidão excitada e inimiga: e se deixa suspender, crucificar… “Este é o meu corpo entregue em sacrifício por vós”.
Elmar Salmann, Passi e passagi nel cristianesimo, Assisi 2011
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