“As pessoas religiosas limitam-se a mostrar um “deus saído da máquina”, que põem em movimento para que seja a solução aparente dos seus problemas sem solução, para que sirva de força para as falhas humanas”
Dietrich Bonhoeffer nasceu a 4 de Fevereiro de 1906, sexto filho duma família aristocrática alemã luterana. Doutorou-se em Teologia com a distinção summa cum laude pela Universidade de Berlim com apenas 21 anos. Profundamente apaixonado pelo ecumenismo, foi nomeado como promotor ecuménico do Concílio mundial de Igrejas a partir de 1931. Em meados de 1932, o partido Nazi organizou uma eleição de presbíteros e representantes oficiais das Igrejas, nomeando apenas membros simpatizantes e filiados ao partido, designados “Cristãos alemães”. Bonhoeffer lutou contra a inconstitucionalidade destas eleições e organizou uma campanha para a promoção de representantes independentes. Após os resultados das eleições os “Cristãos alemães” ocuparam praticamente todas as posições em várias Igrejas Alemãs, quer de confissão Católica, quer de confissão protestante com o intuito de fazer propaganda e exaltar Adolf Hitler como “Messias” da Alemanha. Bonhoeffer, em protesto, aliou-se às poucas Igrejas que mantiveram líderes independentes e formou com elas um movimento de “Igrejas intactas”, em oposição às “Igrejas destruídas” e manipuladas pela ideologia nazi.
Finalmente, a 30 de Janeiro de 1933, o partido nazi ascende ao poder. Dois dias a seguir à tomada de posse de Hitler como Chanceler e “Furher” (líder, ou “guia iluminado”), Bonhoeffer dirigiu-se ao povo alemão num programa de rádio expondo o culto idolátrico a Hitler e denunciou-o como exemplo de “não-líder” e “sedutor”. Após estas palavras o programa foi imediatamente interrompido em direto e cortado. Dois meses depois já organizava ativamente um movimento de protesto da “Igreja confessante alemã” contra a política perseguidora de Hitler aos Judeus. Envolveu-se no movimento de resistência contra o regime nazi para negociação dos termos de rendição com os aliados, e até auxilioua fuga de alguns judeus da Alemanha. É neste período que elabora o seu livro “Ética”, publicado em Portugal em 2007.
Tendo sido constantemente vigiado pelas SS e a Gestapo (a polícia secreta nazi), foi capturado e preso a 6 de Abril de 1943. Permaneceu quase dois anos encarcerado na prisão de Tegel, até ser condenado à morte por conspiração no campo de concentração de Flossenberg na madrugada de 9 de Abril de 1945, semanas antes da capitulação do regime nazi. Encontrava-se noivo de Maria von Wedemeyer, com quem manteve uma intensa correspondência durante o período de prisão (“Cartas de amor desde la prisión”, Madrid 1998).
Os seguintes excertos são retirados da versão castelhana dos escritos da prisão: Dietrich Bonhoeffer – “Resistencia y sumisión. Cartas y apuntes del cautiverio”, Sigueme, 2008. (Esta breve biografia, assim como a escolha de excertos, foi feita por Gustavo Sousa Cabral).
(…)
“Caminhamos para uma época totalmente a-religiosa [não-religiosa]. Simplesmente, os homens, tal como são agora, já não podem permanecer religiosos. Também aqueles que sinceramente se qualificam de “religiosos”, já não praticam de modo algum a sua religião. Sem dúvida, a palavra “religioso” refere-se a algo muito diferente. (…) Todo o cristianismo que nos precedeu caiu privado do seu fundamento, e já não podemos pisar terra firme desde o ponto de vista “religioso” senão nalguns “últimos cavaleiros”, ou nalguns poucos homens intelectualmente nada fiáveis. Por acaso seriam eles os poucos escolhidos?” (…)
“Como pode converter-se Cristo no Senhor, também dos não religiosos? Existem cristãos não religiosos? Se a religião é apenas a veste do cristianismo – e veste essa que apresentou um aspeto muito diferente ao longo das épocas – o que será então um cristianismo sem religião? (…) O que significa uma Igreja, uma paróquia, uma pregação, uma liturgia, uma vida cristã num mundo sem religião? (…) Como se pode falar “mundanamente” de Deus?”
“Então, Cristo já não é objeto da religião, mas algo completamente diferente, realmente o Senhor do mundo.(…) Muitas vezes me interrogo porque com tanta frequência uma espécie de “instinto cristão” atrai-me mais para os não religiosos do que para os religiosos. E isto [acontece] sem a menor intenção missionária. (…) Diante dos religiosos, muitas vezes custa-me pronunciar o nome de Deus, porque nesse contexto o seu nome parece que ganha um som quase fictício, e tenho a impressão de ser algo artificial (isto chega a ser especialmente grave quando eles começam a falar em termos religiosos; então fico praticamente mudo e o ambiente parece-me sufocante e desagradável). Ao contrário, diante dos não religiosos posso, quando há ocasião, nomear o nome de Deus com toda a tranquilidade e como algo óbvio.”
“As pessoas religiosas (…) limitam-se a mostrar um “deus saído da máquina”, que põem em movimento para que seja a solução aparente dos seus problemas sem solução, para que sirva de força para as falhas humanas, tirando sempre partido da fraqueza humana, isto é, dos limites humanos.(…) Mas eu não quero falar de Deus nos limites, antes no centro; não nas debilidades, mas na força; isto é, não na hora da morte e da culpa, mas na vida e no bom do Homem. [Se falamos de Deus] nos limites, parece-me melhor guardar silêncio e deixar sem solução aquilo que não tem.
A fé na ressurreição não é a “solução” para o problema da morte. O “mais-além” de Deus nada tem a ver com o “além” da nossa capacidade de conhecer! A transcendência de Deus nada tem a ver com a transcendência do conhecimento. Deus está no CENTRO da nossa vida, ainda que estando mais além dela. A Igreja não se encontra no lugar onde fracassa a capacidade humana, não se encontra nos limites, mas no CENTRO da ALDEIA.
(…) Ser cristão não significa ser religioso de uma certa maneira, converter-se numa determinada classe de pessoa por um método determinado (um pecador, um penitente, um santo), mas significa ser pessoa, não um “tipo de pessoa”, mas o ser humano que Cristo cria em nós. (…) O “ato religioso” tem sempre algo de parcial; a fé, pelo contrário, é um todo, um ato de vida. Jesus não chama a uma nova religião, mas para a vida! Mas, que aspeto tem esta vida? Esta vida de participação na impotência de Deus no mundo? (…) O mundo adulto é mais sem Deus e, quem sabe, precisamente por essa razão, está mais perto de Deus do que estava o mundo da “menor idade”.
(…) O cristão não é um “homo religiosus”, mas simplesmente um ser humano, como foi Cristo, à diferença, quem sabe, de João Batista. Não me refiro a um “ser deste mundo” banal e vulgar, como podem ser os homens iluminados, os ativistas, os satisfeitos (…). Refiro-me antes a um “ser profundamente deste mundo”.
Recordo ainda uma conversação que mantive, faz já treze anos na América com um pároco francês. Perguntávamo-nos simplesmente o que queríamos fazer da nossa vida. Ele disse-me que queria ser santo (e creio muito possivelmente que tenha chegado a sê-lo). (…) Não obstante, contradisse-o e respondi-lhe mais ou menos que queria aprender a crer. (…) Mais tarde tive a experiência, e continuo a tê-la, de que só vivendo plenamente a vida deste mundo é como aprendemos a crer. (…) Viver na plenitude das tarefas, problemas, êxitos, e fracassos, experiências e perplexidades.»
«Ainda não desapareceu de todos nós a questão individualista acerca da salvação pessoal da alma? Não temos realmente a impressão de que existem coisas mais importantes que esta questão (…). Sei que parece quase uma barbaridade quando digo isto. Mas, no fundo, será isso bíblico? No Antigo Testamento existirá nalguma passagem a questão da salvação da alma? Não será a Justiça e o Reino de Deus o centro de tudo? E não é Romanos 3,4 a meta do pensamento: que só Deus é justo, e não uma doutrina individualista da salvação? Não se trata do “mais-além” mas deste mundo, como foi criado, conservado, submetido a leis, reconciliado e renovado. No Evangelho, o que está “mais além” deste mundo quer existir para este mundo.»
Ver mais: Obras de Dietrich Bonhoeffer
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