Regressamos a Teresa de Ávila, nos quinhentos anos do seu nascimento. As edições Carmelo acabam de publicar uma nova edição da sua obra da maturidade, as Moradas ou Castelo Interior. No meio (ou através) da linguagem do século XVI, encontramos a procura do Amante, a democratização da experiência de Deus (acessível até a umas “pobres” monjas: recordemos o frágil lugar social da mulher naquele contexto), a descoberta, ao longo de uma vida, de um Rei de Amor que habita num Palácio, por entre todas as imagens de juízo e condenação espelhadas pela inquisição e pela reforma.
Hoje, um breve excerto, sobre a Humanidade de Jesus. Por quem sabe do que fala.
“Também poderá parecer-vos que quem goza de coisas tão sublimes não meditará os mistérios da sacratíssima humanidade de Nosso Senhor Jesus Cristo, pois amar é só o seu exercício. Sobre isto já escrevi bastante noutro lugar. E, apesar de me terem contrariado e dito que eu não entendo, porque são caminhos por onde nosso Senhor as leva e que, deixando de ser principiantes, é melhor tratar das coisas da divindade e fugir das corpóreas, a mim não me levarão a confessar que esse seja um bom caminho. Também pode acontecer que eu me engane e que estejamos todos a dizer o mesmo, mas eu bem vi que o demónio me queria enganar por aí. Por isso, escarmentada como estou, quero repetir aqui mais uma vez aquilo que já vos disse mais vezes, a fim de andardes com muito cuidado. Reparai que ouso exortar-vos a que não acrediteis em quem vos disser outra coisa. Vou procurar explicar-me melhor do que o fiz noutro lugar. Porque, se por acaso alguém escreveu sobre isto como ele disse, era bom que se alargasse um pouco mais a explicá-lo. Na verdade, dizê-lo tão resumidamente a pessoas pouco entendidas como nós, pode fazer muito mal.
Parecerá também a algumas almas que não podem pensar na Paixão. Nesse caso, ainda menos poderão pensar na santíssima Virgem Maria, ou na vida dos Santos, cuja memória nos traz tão grande proveito e alento. Eu não consigo imaginar em que pensam tais pessoas. Isso de viver separados do corpo e sempre abrasados em amor é só para espíritos angélicos e não para nós, que vivemos num corpo mortal. Nós precisamos de tratar, lembrar e fazermos-nos acompanhar daqueles que, tendo esse corpo mortal, fizeram tão grandes façanhas por Deus. E muito mais ainda precisamos de não nos afastarmos propositadamente do nosso maior bem e remédio que é a sacratíssima humanidade de nosso Senhor Jesus Cristo. Eu não posso crer que essas almas o façam realmente, mas antes que não se entendem a si mesmas, pelo que se prejudicam a si e aos outros. Pelo menos, garanto-lhes que não entrarão nestas duas últimas moradas, se é que continuam seguras nas outras! Porque, se perdem o guia, que é o bom Jesus, não atinarão com o caminho, porque o próprio Senhor diz que é o caminho. O Senhor também diz que é a luz, que ninguém pode ir ao Pai senão por Ele e ‘quem me vê, vê o Pai’. Dirão que estas palavras têm outro sentido, mas eu desconheço esses sentidos. Com este, que a minha alma sempre sentiu como verdadeiro, tenho-me dado muito bem.”
Teresa de Ávila, Moradas. Castelo Interior. Avessadas 2015
Susbscribe to our awesome Blog Feed or Comments Feed