Morreu esta noite o jesuíta irlandês Michael Paul Gallagher. Ficou conhecido entre nós pelo livro Livres para Acreditar: Dez Passos para a Fé (ed. Tenacitas, Coimbra 2011) e, mais recentemente, pelo livro Mapas de Fé: Dez exploradores religiosos, de Newman a Joseph Ratzinger (ed. Frente e Verso, Braga 2015).
Nos seus livros encontramos uma aproximação muito pessoal à experiência de fé, no encontro os maiores da literatura (sobretudo de âmbito anglo-saxónico). O autor não se preocupa em “justificar” a fé cristã nem “defendê-la”; o seu propósito é descobrir as dimensões que a pessoa vive num caminho de confiança e liberdade.
Diz o autor na sua Introdução ao Livres para Acreditar:
«O nosso plano é então explorar a procura da fé como uma caminhada ou uma história tripla: um caminhada de liberdade – histórias de libertação; uma caminhada de verdade – histórias de busca; uma caminhada de receber e de dar – histórias de amor (…) Apesar de não tratar de questões tradicionais de teodiceia, tal como o problema do mal, este livro tenta evidenciar o que podem ser bloqueios que impedem as pessoas de se tornarem psicológicamente livres para a fé. Depois prossegue, tentando ver como é que os caminhos da fé se podem tornar credíveis na nssa cultura. E finalmente procura imaginar como é que o cristianismo pode ser acolhido e vivido hoje.»
Eduardo Madureira, num artigo publicado no jornal Diário do Minho em Abril de 2012, apresenta uma recensão do livro Livres para Acreditar: o artigo pode ser lido aqui:
http://religionline.blogspot.pt/2012/04/quem-nos-estraga-vida-quem-e-que-no-la.html
Mais recentemente, o Secretariado da Pastoral da Cultura apresentou, no seu site, um excerto da Introdução ao livro Mapas de Fé, que pode ser lido aqui:
http://www.snpcultura.org/mapas_de_fe.html.
Ficam os dez passos que o autor aponta num caminho de descoberta de Fé, retirado do esquema de conclusão do livro Livres para Acreditar. O seu trabalho de re-elaboração dos passos de Fé, em encontro com os “gigantes” (como gostava de chamar aos autores a quem estudava), pode ajudar-nos a re-descobrir, também, o nosso caminho como crentes.
…
«1) Libertar-se. A primeira libertação: de um falso eu, preso em atitudes negativas, para um eu verdadeiro, generoso e vivo; o que implica paciência para com as sombras, até conseguir estar em paz e em contacto com os sentimentos mais profundos;
A segunda libertação: das pressões de uma cultura superficial para a coragem de viver de um modo diferente: com maior simplicidade, mais contemplativamente e encontrando um outro tipo de comunidade de apoio;
A terceira libertação: do pensar Deus com a linguagem do ‘estando algures lá em cima’ para um espanto que possa experimentar um sentimento de assombro e reverência perante o Mistério e levantar questões genuínas sobre a verdade religiosa;
A quarta libertação: dos deuses indignos e imaturos das imagens da infância para o rosto humano de Deus revelado em Cristo.
2) Focalizar a atenção. A primeira busca: o coração que se deixa conduzir pelas suas aspirações mais profundas, mantendo as suas inquietações, esperando que o tempo esteja maduro para dizer ‘sim’ (o autor inspira-se na figura de S. Agostinho);
A segunda busca: A mente que busca um sentido, lutando com os muitos porquês da existência (neste caso, a inspiração é a figura de S. Tomás);
A terceira busca: A consciência, desperta para os auto-enganos e para os escândalos do nosso mundo fragmentado, que apesar disso se esforça por descobrir aquilo que é justo e que é melhor (com Henry Newman);
A quarta busca: O espírito interior que não foge do silêncio, que experimenta um pouco da sua própria profundidade e que aprende aí a escutar a palavra de Deus (com Teresa de Ávila).
4) Amor em que a fé nasce. A primeira história de amor: Descobrir que, em Jesus Cristo, Deus se aproxima de nós; encontrá-Lo pessoalmente, ser surpreendido com a sua compreensão e com o poder da sua compaixão;
A segunda história de amor: Tendo chegado à honestidade graças à humildade que nasce da inconstância na capacidade de amar, provocados pelos desafios que o Evangelho nos lança, ficamos mais preparados para nos libertar-nos de nós próprios e das nossas resistências à fé.»
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