Hoje, no seu dia de aniversário, um Presbítero que merece ser citado; um texto longo, mas que me parece valer a pena:
«É impossível escrever uma biografia exacta de Jesus. Nem sequer sabemos ao certo quando e mesmo onde nasceu. Mas quem foi? Resolvida ou não a questão da sua historicidade – hoje praticamente admitida por todos – esta é a pergunta fundamental. De resto, daquilo que se depreende dos relatos evangélicos, o próprio Jesus só progressivamente se entendeu a ele próprio como senhor de uma missão especial, num processo que acompanhou o seu crescimento pessoal.
E os milagres? Os textos bíblicos nunca falam de milagres no sentido em que hoje se utiliza esta palavra. Os episódios relatados – quase todos referidos a curas – são acções que fogem ao normal e aparecem como extraordinárias. Mas, ao contrário do que sucedia no seu tempo em que muitos pregadores itinerantes teriam também capacidades taumatúrgicas, sempre que Jesus fazia um milagre, nunca quis com ele mostrar o seu poder, antes dar um sinal do perdão de Deus ou pôr um sinal do Reino que anunciava. Esta foi mesmo a grande notícia que anunciou: ‘Cumpriu-se o tempo e o Reino de Deus está próximo; convertei-vos e acreditai na Boa Nova (Mc 1,14-15).
Ao dar a primazia ao Reino, relativizou tudo o mais, afirmando perante tudo e todos a sua liberdade: frente ao dinheiro (Mt 6,25-33), à ambição de honra e poder (Jo 6,15), frente aos poderosos (Lc 13,31-33), para com os laços familiares (Mc 3,33-35), diante de qualquer grupo político ou religioso (Mt 22,24 e 23,13-32), frente à Lei (Mt 5,21ss), ao Templo (Jo 2,19), ou ao Sábado (Mc 2,27), ou frente ao culto formalista (Mt 5,23). Apesar de rodeado sempre por muita gente, precisava de se retirar para lugares solitários e amargou até ao fundo a solidão, como qualquer ser humano. Colocava-se, por isso, inteiramente, nas mãos de Deus a quem chamava Pai. Só Deus lhe saciava a sede profunda de comunicação.
De tudo isto, entretanto, acabaria por pagar a factura. Pretender implantar o Reino de Deus era uma ameaça feita ao velho mundo e seu estilo de vida. Grupos cuja inimizade era proverbial uniram-se então para lhe dar a morte, mesmo hipotecando coisas essenciais. Todos se confabularam contra o inocente: a morte de Jesus foi o preço da sua liberdade. Entre os discípulos surgiu o desânimo e a desilusão. (…)
Mas, a morte de Jesus na Cruz, que o havia tornado um maldito aos olhos de Deus (Gl 3,13), foi corrigida por Deus. Este é o conteúdo nuclear da pregação apostólica:´’Vós mataste-lo cravando-o na cruz, mas Deus ressuscitou-o (Act 2,23-24). A mensagem da Ressurreição revela algo de completamente inesperado: apesar das aparências, o Crucificado tinha razão. Ele era Filho de Deus e não há agora quem detenha o crescimento do Reino. A Ressurreição de Jesus permitiu a resposta às perguntas angustiantes: que sentido tem dar a vida pelo outro?, ou simplesmente para quê viver se havemos de morrer?
Posso ler o testemunho de um jornalista guatemalteco ameaçado de morte no meio das perturbações endémicas do seu país e do seu continente?
‘Dizem que estou ameaçado de morte. Talvez. Seja como for, estou tranquilo porque, se me matarem, não me tirarão a vida, eu levá-la-ei comigo, aos ombros, como o pastor o seu bornal. A quem se mata podem tirar-se-lhe tudo previamente, como hoje se faz tantas vezes: os dedos das mãos, a língua, a cabeça. Pode queimar-se-lhe o corpo com cigarros, podem-no cortar, partir, destroçar, mesmo fazer carne picada. Pode fazer-se-lhe tudo. Quem me lê comover-se-á profundamente, e com razão. Eu já não me comovo grande coisa, porque desde pequeno que Alguém soprou aos meus ouvidos uma verdade firmíssima que é, ao mesmo tempo, um convite de eternidade: Não temais os que podem matar o corpo mas não tirar a vida.
A vida, a verdadeira vida, fortaleceu-se em mim quando, através de Teilhard de Chardin, aprendi a ler o Evangelho: o processo de Ressurreição começa com a primeira ruga que se nos desenha na cara; com a primeira marca de velhice que nos aparece nas mãos; com o primeiro cabelo branco que descobrimos na cabeça, um dia qualquer, ao pentear-nos; com o primeiro suspiro de nostalgia por um mundo de que nos desligamos e que começa a fugir-nos. Começa assim a Ressurreição. Começa assim essa coisa tão incerta a que chamamos a ‘outra vida’ mas que, na realidade, mais que ‘outra vida’ é uma vida ‘outra’.
Dizem que estou ameaçado de morte. Da morte corporal, a que Francisco tanto amou. Quem não está ameaçado de morte? Estamo-lo todos, desde que nascemos. Porque nascer é um pouco sepultarmo-nos também. Ameaçado de morte? E daí? Se assim for, perdoo-lhes antecipadamente. Que a minha Cruz seja uma perfeita geometria de amor, desde que eu possa continuar a amar, falando, escrevendo e ajudando a sorrir, de vez em quando, os homens meus irmãos.
Que estou ameaçado de morte! Há neste aviso um erro de conceito. Nem eu nem ninguém está ameaçado de morte. Está tudo equivocado. Os cristãos não estão ameaçados de morte. Estamos ameaçados é de Ressurreição, porque, para além de Caminho e de Verdade, Ele é a Vida, mesmo que esta seja crucificada na grande lixeira do Mundo’ (Calderon Salazar, 1978).
A grande pergunta dos cristãos: Quem dizem os homens que eu sou?»
Arlindo de Magalhães, «Um Povo a Caminho II: Comunidade Cristã da Serra do Pilar», V.N. Gaia 1999, págs. 53ss
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