Fundamentos

Bento XVI, «Luz do Mundo»

Confesso que não tenho seguido com muita atenção as recentes notícias de escândalos no Vaticano, nem faço ideia do que poderá estar por dentro deles. Lembrei-me, no entanto, de pegar no livro de entrevistas com Peter Seewald e lançado em Portugal em 2010, no qual Bento XVI fala de outra série de escândalos, a meu ver bem mais graves, como foram os de pedofilia na Igreja. Algumas passagens chamaram-me a atenção:

«P. Seewald: Não é apenas o abuso que abala – é também a forma como se lida com ele. Os actos em si foram silenciados e encobertos durante décadas. É uma declaração de falência para uma instituição que usou o amor como bandeira.

Bento XVI: Sobre isso, o arcebispo de Dublin contou-me algo muito interessante. Disse-me que, apesar de não estar completo, o direito penal canónico funcionou até ao final dos anos 50 e, embora muito nele fosse criticável, mesmo assim foi aplicado. Mas, a partir da segunda metade dos anos 60, simplesmente deixou de ser aplicado. Reinava a consciência de que a Igreja não deveria ser uma Igreja de direito, mas uma Igreja de amor; e de que ela não poderia punir. Assim, foi apagada a consciência de que a punição pode ser um acto de amor. Nessa altura, assistiu-se ao obscurecimento do pensamento de muito boa gente.

Hoje temos de reaprender que o amor para com o pecador e o amor para com o lesado têm de estar num equilíbrio tal que se puna o pecador nos termos possíveis e adequados. Neste sentido, houve no passado uma mudança de mentalidades que acarretou um obscurecimento do direito e da necessidade de punição – e, em última instância, também um estreitamento do conceito de amor, o qual não é apenas bondade e cortesia, mas está também na verdade. E a verdade implica igualmente que se castigue aquele que pecou contra o verdadeiro amor (…)

P. Seewald: A maioria destes incidentes ocorreu há décadas e, contudo, eles afectam de forma particular, agora, o seu pontificado. Pensou em abdicar?

Bento XVI: Quando o perigo é grande, não podemos fugir. Não é por isso, de certeza, o momento de abdicar. É precisamente num momento assim que temos de resistir e passar pela situação difícil. Esta é a minha opinião. Podemos abdicar num período tranquilo ou quando simplesmente já não podemos mais. Mas, face ao perigo, não podemos fugir e dizer que um outro o resolva.

P. Seewald: Existe então uma situação concebível em que considere apropriada a resignação do Papa?

Bento XVI: Sim. Quando um Papa tenha a clara percepção de que física, psíquica e espiritualmente já não consegue levar a cabo a missão do seu cargo, tem o direito, e em determinadas circunstâncias também o dever, de se retirar (…)

P. Seewald: E, contudo, nos dias que correm, tem-se revelado difícil para muitos permanecerem na Igreja. Consegue compreender que as pessoas protestem saindo?

Bento XVI: Posso compreender. Penso, naturalmente, sobretudo nas vítimas. Consigo compreender que lhes seja difícil continuarem a acreditar que a Igreja é a fonte do bem e que ela transmite a luz de Cristo que as ajuda a viver. E outros, que só recebem essas percepções negativas, já não conseguem ver o todo, a vida da Igreja. Tanto mais terá ela de se esforçar para que essa vivência e essa grandeza se tornem novamente visíveis, apesar de todos os aspectos negativos (…)

P. Seewald: Talvez tenhamos, em parte, também uma imagem totalmente errada da Igreja. Como se ela estivesse livre destas coisas e não estivesse exposta às tentações, e logo ela. Permito-me mais uma vez citar o texto das suas meditações para a Via Sacra: “As vestes e o rosto sujos da tua Igreja abalam-nos. Mas somos nós mesmos que os conspurcamos […] Com a nossa queda, atiramos-te ao chão, e Satanás ri-se, porque espera que Tu não consigas novamente erguer-te; espera que Tu, arrastado pela queda da tua Igreja, fiques por terra vencido”.

Bento XVI: Sim, é isso que podemos ver hoje com os nossos próprios olhos e que se nos impõe de modo particular na meditação da Via-Sacra. Aí torna-se evidente que Cristo não sofreu por quaisquer acasos, mas que tomou sobre Si realmente toda a História do Homem. O seu sofrimento por nós não é uma mera fórmula teológica. Ver isso e deixarmo-nos depois levar por Ele para o seu lado e não para o outro lado é um acto existencial. Na meditação da Via-Sacra tomamos consciência: Ele sofre mesmo connosco. E assumiu também a minha situação. Agora puxa-me para Si, procurando-me no meu abismo e puxando-me para Si.

O mal pertencerá sempre ao mistério da Igreja. Se olharmos para tudo o que os homens, e nomeadamente o clero, fizeram na Igreja, temos aí verdadeiramente uma prova de que Ele fundou a Igreja e a sustém. Se ela apenas dependesse dos homens, há muito que já teria perecido.»

Bento XVI, «Luz do Mundo: O Papa, a Igreja e os Sinais dos Tempos – uma conversa com Peter Seewald», ed. Lucerna, Lisboa 2010, págs. 35ss

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