Uma verdadeira relíquia que acabou de chegar à Fundamentos: Karl Rahner, «Apelos ao Deus do Silêncio: dez Meditações», das edições Paulistas, impresso em Lisboa em 1969. O texto que se segue tem por título «Deus das Leis»:
«Sereis Vós na minha vida o Espírito da liberdade ou o Espírito das leis? Ou sereis Vós um e outro ao mesmo tempo? Ou então: sereis Vós o Deus da liberdade por meio da lei? As Vossas leis, que Vós próprio nos impusestes, não são cadeias: posso admitir de boavontade que são preceitos de liberdade. Simples, claros, inexoráveis, estes preceitos conservam-me na liberdade, propondo-me soçobrar na minha própria limitação, nas minhas pequeninas alegrias. Estes preceitos suscitam em mim o amor espontâneo por Vós. Eles são a verdade, pois me obrigam a colocar no cume o que deve estar no cume e a não levantar sobre o altar da minha vida aquilo que não passa de baixeza. Precisamente porque são verdade, os Vossos mandamentos dão-me liberdade, esses mandamentos que Vós estabelecestes na Lei Nova (…)
Não acontece o mesmo com os mandamentos inventados pelos homens e impostos em Vosso nome. Concedei-me, ó Deus da liberdade e da linguagem sincera, que me exprima, pelo menos uma vez, com toda a liberdade e que confesse os pensamentos que obsidiam o meu espírito em certas horas sombrias, já que Vós não recusais prestar atenção mesmo a estes pensamentos. Senhor, Vós abolistes a Lei Antiga ‘que nem os nossos pais puderam suportar’ (Act 15,10). Mas Vós estabelecestes autoridades neste mundo: a autoridade temporal e sobretudo a autoridade espiritual.
Parece-me, muitas vezes, que os representantes da autoridade se têm mostrado singularmente apressados a fechar as brechas abertas na cerca das regras e ordenanças pelo furacão do Pentecostes, quer dizer, pelo sopro do Vosso Espírito de Liberdade. Aí estão os 2414 artigos do Direito Canónico. Infelizmente, têm-se revelado, mesmo assim, insuficientes: quantas respostas a problemas embaraçosos se lhe têm acrescentado para grande satisfação dos juristas! Mas temos alguns milhares de decretos litúrgicos que pretendem todos ser observados. Quando recito o meu breviário, para Vos poder louvar ‘pelos salmos, hinos e cânticos inspirados’ para ‘Vos cantar e celebrar de todo o meu coração’ (Ef 5,19), preciso de um ‘guia de viagem’ dum directório que se imprime novinho em folha, todos os anos, de tal modo esta linguagem divina é complicada.
Mas isto não é tudo: existem também no Reino do Vosso Espírito Santo ‘boletins oficiais’ de todos os géneros, papelada sem conta onde se amontoam actos, pedidos e respostas, relatórios, decisões, citações, instruções de congregações e das mais diversas comissões. Quantos problemas subtis levantados pelos moralistas, para ordenar e interpretar as decisões sem conta da autoridade! A que aritmética tão subtil como sábia nos arrastou a distribuição das indulgências! Não vai longe o tempo em que sábios teólogos discutiam para saber se um pobre doente devia beijar a Cruz de Vosso Filho 14, 6 ou menos vezes ainda para ganhar uma indulgência! Que excesso de zelo da parte dos Vossos servos e intendentes, durante o longo período em que Vós ‘partistes em viagem’ para as terras distantes e silenciosas da eternidade, deixando a Vossa casa ao cuidado deles! Entretanto, a Sagrada Escritura declara que precisamente onde está o Espírito do Senhor aí está a liberdade (…)
Afirmo, Senhor, a minha boa vontade, a minha disponibilidade para aceitar os numerosos preceitos e sobretudo as numerosas proibições que me vêm de Vós por intermétdio dos meus superiores eclesiásticos. Estou disposto a observar todas as suas disposições e prescrições. Tenho a convicção de que esta obediência me será benéfica. Mas sereis Vós próprio o Deus das leis? (…) Sereis Vós verdadeiramente o Deus das leis? Tenho dificuldade em precisar o sentido exacto que desejaria dar à minha interrogação.»
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