D. Chenu, R. Guardini… O que uma pessoa pode descobrir no fundo de catálogo de uma editora, no caso a Editorial Franciscana: faz recordar a passagem do Evangelho de Mateus 13,52, «um pai de família, que tira coisas novas e velhas do seu tesouro». (o meu agradecimento ao sr.º Rui Pereira, da Editorial: já era para ter feito aqui publicidade a estes livros, mas quando chegaram os primeiros exemplares, foram vendidos no próprio dia).
O título da versão portuguesa é contraditório: na capa diz «Teologia e Trabalho», na primeira página «Trabalho e Teologia». O título original é mesmo «Pour une Théologie du Travail». O autor (1895-1990) é uma dos maiores, ou pelo menos um dos mais originais, teólogos católicos do século XX, e o seu contributo foi decisivo para o Concílio Vaticano II. Foi um teólogo ligado de muito perto ao chamado movimento dos Padres Operários que, sobretudo em França, teve a sua origem nos finais do século XIX; foi um movimento de padres e bispos que, para contrariar o afastamento reciproco entre a Igreja e o mundo operário, vestiram a farda e foram trabalhar para fábricas, para nelas, directamente e lado a lado, descobrirem as dificuldades da vida de um operário e procurarem a melhor linguagem para a evangelização (que, lembremos, não é proselitismo). M.D. Chenu foi, talvez, o maior representante da dimensão intelectual ou reflexiva deste movimento. O início deste livro, escrito no anos 50, é magnífico (seja pelo conteúdo como pelos arcaísmos do texto português – que coloco entre aspas, para não pensarem tratar-se de erros de dactilografia):
«Haverá sempre operários e patrões. Este lugar comum do conservantismo social, à sombra do qual se refestela a mais elementar ignorância sobre a função do trabalho na evolução da Humanidade, era bastante frequente em grupo extenso de cristãos, aí por 1910, que mesmo uma ‘mui’ alta autoridade eclesiástica o utilizou, então, ingenuamente. A mais ardente caridade fraterna com que era caldeado, nas altas esferas, como no ensino corrente, não lhe podia atenuar o dano, mas antes disfarçava o veneno, sob a capa duma boa consciência. O não reconhecimento da luta de classes, com as suas imediatas consequências, logo denunciava a sua ambiguidade: assim como o amor evangélico repele o ódio, que é o choque de dois egoísmos e não a libertação do homem, assim também o exame dos factos e as reivindicações da justiça, inspiradas no amor evangélico, exigem, contra a farsa dos filantropos e as teses de harmonia liberal, um equilíbrio real de forças entre o capital e o trabalho.
Este antagonismo não poderá ser resolvido por meio de virtudes morais, moderando a inveja de uns e refreando a paixão de lucro de outros. Impõe-se uma transformação das estruturas económicas, pois não se trata de uma questiúncula entre ricos e pobres, mas das bases constitutivas da organização económica e social. Este moralismo piedoso que, na verdade, ‘dessora’ as exigências evangélicas e atraiçoa a maldição cristã do dinheiro continua, sem dúvida, a deformar a mentalidade de um grande número de cristãos.»
E o texto continua, citando Pio XI: «Contrariamente ao plano de Deus, o trabalho do homem tende, nestas condições, a tornar-se um instrumento de depravação. A matéria inerte sai enobrecida da oficina, enquanto que os homens aí se aviltam». Hoje talvez traduziríamos ‘depravação’ por desumanização, ‘matéria’ por tecnologia, ‘oficina’ por escritório, e ‘aviltam’ por ‘stressam’ (se é correcto assim dizer). Sem dúvida que hoje continua a fazer falta um anúncio profético na Igreja, uma denúncia evangélica e crítica de um sistema económico que continua a ser fonte de desumanização, condenado uns ao excesso de trabalho e outros à falta dele.
Um livro que procura explica o significado de gestos como o sinal da Cruz, o estar de pé, o andar, a porta, a cinza ou até o linho utilizado nas toalhas das Igrejas! Escrito originariamente em 1927, encontramos no prólogo escrito pelo autor: «Trata-se em primeiro lugar de ‘formação litúrgica’, não de ‘informação litúrgica’, embora dela não se deva separar. Duma orientação ou, pelo menos, dum estímulo à contemplação e à realização viva dos ‘sinais sagrados’. E então pareceu-me acertado e proveitoso começar pelas coisas mais simples; pelos elementos sobre que se levantam depois as criações superiores da liturgia. Era preciso fazer vibrar aquilo que no homem corresponde àqueles sinais elementares.»
É surpreendente o simbolismo que o autor descobre numa porta de igreja: «Muitas vezes entrámos já por ela na Igreja e de cada vez nos disse alguma coisa. Compreendemo-lo? Para que está a porta ali? Talvez te admires desta pergunta. ‘Para se sair e entrar’, julgas tu. A resposta não é assim tão difícil. Pois não. Mas para entrar e sair não é preciso porta nenhuma! Uma abertura na parede faria o mesmo efeito e um tabique de pranchas e tábuas fortes bastaria para fechar. As pessoas poderiam entrar e sair e seria barato e estaria em correspondência com o fim em vista… mas não seria uma ‘porta’. Esta destina-se a cumprir mais do que um simples fim; ela fala.
Repara como ao transpô-la tens esta sensação: ‘Agora deixo o que fica lá fora. Entro.’ Lá fora fica o mundo belo, fervilhante de vida e poder criador. De mistura, existe também muita coisa menos digna: a busca dos seus interesses, por vezes exageradamente. Anda tudo a correr de um lado para o outro, procurando cada qual acomodar-se o melhor que pode. Não queremos dizer que o mundo não seja santo; mas alguma coisa de não santo tem sem dúvida em si. Pela porta entramos num recinto alheio a interesses, silencioso e sagrado: no santuário. Certamente que tudo é obra e dom de Deus. Em toda a parte Ele pode vir ao nosso encontro. Devemos receber cada coisa da mão de Deus e santificá-la com piedosa intenção. E no entanto os homens desde sempre souberam que determinados lugares são especialmente consagrados, reservados a Deus.»
Este texto torna-se ainda mais surpreendente conhecendo um pouco da biografia do autor. Romano Guardini (1885-1968) é também considerado um dos maiores teólogos católicos da primeira metade do século XX. Professor universitário em Berlim até ao seu afastamento pelo regime nazi e depois em Tubinga, foi um precursor do diálogo do cristianismo com a filosofia, sobretudo a alemã, e autores como K. Rahner, Hans Von Balthasar ou mesmo Joseph Ratzinger consideram-no como uma referência essencial. Ao mesmo tempo, publicou inúmeros livros dedicados ao anúncio fundamental do Evangelho, sobretudo à pastoral juvenil.
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