Os livros que uma pessoa encontra numa editora como o Instituto Piaget: dois modos de dizer a Fé, segundo a vocação dos dois autores. Para H. Kung, teólogo alemão, a necessidade de converter as palavras, de encontrar um significado actual a uma profissão de fé dos primeiros séculos cristãos. Para J. Gaillot, bispo francês, a necessidade de narrar a Fé, através das experiências e acontecimentos da sua vida e missão – as experiências mais profundas de humanização. Aqui ficam uns excertos – e nem é necessário dizer como recomendo estes livros, acessíveis a qualquer pessoa que queira descobrir algo mais… (na fotografia: o bispo Gaillot)
Da introdução, pelo autor: «É obvio que hoje – felizmente – já ninguém pode ser obrigado a crer. Actualmente são muitos os homens que gostariam de crer, contudo, não o conseguem do mesmo modo que os homens da Antiguidade Clássica, na Idade Média ou no período da Reforma. Muita coisa mudou na constelação global do nosso tempo. Na crença cristã demasiadas coisas parecem estranhas e parecem contrariar as ciências da natureza, as ciências humanas, bem como os impulsos humanos do nosso tempo. É aqui que o presente livro se propõe ajudar. O que o Papa João XXIII considerou o ‘ponto fulcral’ no seu discurso de abertura do Concílio de 1962 também pode ser considerado o ‘ponto fulcral’ do presente livro. Não se trata “da discussão deste ou daquele artigo de fé da doutrina da Igreja através da repetição verborosa da doutrina dos Santos Padres. Nem tampouco se trata da discussão dos artigos de fé das doutrinas dos teólogos antigos e modernos que se pressupõem sempre presentes e conhecidos pelo nosso espírito”. Trata-se sim de um “salto em frente, em direcção ao entendimento aprofundado da doutrina e à formação das consciências, visando decerto uma correspondência mais perfeita e uma maior lealdade relativamente à doutrina verdadeira, mas estudada e apresentada sob as formas da investigação e das formulações literárias de um pensamento moderno” (…)
A presente explicação da profissão de fé apostólica é formulada com base na seguinte convicção: apesar das críticas a que estão sujeitos o cristianismo e a Igreja, o homem dos finais do século XX pode dizer com uma atitude de confiança razoável: Credo, eu creio. Posso dizer ‘sim’ aos artigos da profissão de fé apostólica (decerto com vários graus de importância) como orientação para a minha própria vida e como esperança para a minha própria morte.»
Nota: publicado no original em 1992, certamente que o mesmo se poderá dizer do homem dos inícios do século XXI.
Pelo autor, actualmente bispo de Partenia (querem saber onde fica? http://www.partenia.org/portugues/partenia_pt.htm)
«Desde há um mês, moro num prédio abandonado da rua du Dragon. A rua du Dragon situa-se no centro de Paris, perto da rua de Rennes e do boulevard Saint-Germain. Bastante estreita, tem muito movimento e acolhe lojas e restaurantes de qualidade (…) Este é o prédio que ocuparam em 1994, no início do Inverno, cerca de três centenas de pessoas sem abrigo ou mal alojadas. As famílias, a maioria com crianças, instalaram-se na parte de habitação, os solteiros nos escritórios, e disponibilizaram-se as salas para as associações que se ocupavam dos excluídos. As situações de uns e outros são bastante diferentes: desde as pessoas mais ‘normais’ até aos drogados, doentes com sida, alcoólicos, pessoas sem rumo (…)
Após algumas semanas, algumas famílias vieram ter comigo e disseram-me: ‘Precisávamos que nos celebrasse uma missa’. Preocupado com o respeito pela liberdade das pessoas, nunca tocara no assunto. Estamos a dois passos da igreja Saint-Germain-des-Prés, mas parece claro que os habitantes do prédio não são grandes frequentadores da paróquia. Duas ruas, e sobretudo dois tipos de situação, separam dois mundos. ‘Está bem, direi a missa’. Aonde? Rapidamente chegámos a acordo: há uma sala onde as famílias se reúnem todas as semanas. Não tem um aspecto muito bonito, e as escadas que aí conduzem estão bastante sujas. Não tem importância: encarregamo-nos de tudo e de manhã encontrei a sala repleta de decorações. É um muçulmano que limpa as escadas. Fica muito contente por fazê-lo. É a sua forma de participar.
Uma mesa, onde arranjar uma mesa? E os bancos? Pensa-se em grande: uma centena de pessoas. Na verdade, acabaremos a celebração muito apertados, devido a tanta afluência. São feitos os últimos preparativos. Pão, vinho. Ninguém tem vinho. Vêm fazer-me queixa de tal falta. ‘Estou na mesma situação que vocês, não tenho nada.’ ‘Vamos pedir ao Gilles. Costuma ter sempre.’ Sim, Gilles, o vagabundo, ainda tinha um resto de reserva. ‘Vinho tinto, serve?’ ‘Claro, é vinho.’ ‘Pois é!’ Palavras que têm muito significado! O que entendemos por ‘sinal’ está de tal forma sacralizado, que já não pode corresponder à simples realidade, esta realidade que um vagabundo vive todos os dias (…)
Estamos atrasados. Mas tudo parece por fim estar pronto. As famílias e as crianças estão à frente. Atrás, apoiados contra a parede, alguns homens fumam conscienciosamente o seu cigarro, mas estão muito atentos. Algumas pessoas do exterior também se juntaram a nós: a notícia espalhou-se. Até estão presentes dois padres: uma verdadeira missa solene! Subitamente, interrupção: quatro argelinos chegam. Tinham-me telefonado na véspera por causa de um assunto ‘urgente’. Marcara um encontro com eles, mas estão adiantados. Proponho-lhes que me esperem no exterior, ou então que assistam à missa. Não hesitam. Estão aí. As pessoas afastam-se para lhes dar um lugar.»
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