«Vou vivendo com a impressão de que há muito pouco gosto pela leitura. É claro que modernamente multiplicam-se os seus inimigos que passam pelas chamadas redes sociais. Sem negar as vantagens (e desvantagens?) destas, não posso deixar de privilegiar a leitura, de prestar homenagem ao livro, como companheiro inseparável de qualquer vida. Costumava dizer-se, embora sem grande frequência: “Diz-me o que lês, dir-te-ei quem és”. Este axioma está carregado de verdade, já que o gosto do género escolhido bem claro é que me informa do que incomoda ou do que satisfaz a pessoa, ajuda-me, em certo modo, a desenhar-lhe o retrato psicológico. Mas, nestas áreas de gosto ou desinteresse pela leitura, eu permito-me vir um pouquinho atrás e completar: “diz-me se lês, dir-te-ei se és”.
A mim, apetece-me dizer que quem não lê não é, porque não vê, não sabe, não está. Não terei a razão toda, mas alguma estará comigo. Fomenta-se agora o gosto da leitura. Até para tanto se formam associações e se lançam no terreno as mais variadas (e até inéditas) iniciativas. Ler, gostar de ler, apaixonar-se pela leitura, é importante. Funciona como construção da pessoa. O resto, qualquer resto, é interessante, ajuda, aproxima – aparta, vem e vai eventualmente sem deixar marca. Logo no princípio desta reflexão, eu queria, se calhar sem razão, dizer da pena que sinto, ao convencer-me que muitos dos nossos padres (que pecado eu fui dizer! perdoem-me, por favor) não lêem ou lêem pouco. Digo-o porque sempre o observei e digo-o porque mo dizem nas (nossas) livrarias.
A leitura põe-nos em dia. Sem leitura, somos ontem. Aos anos que isto aconteceu, mas lembro-me de uma velhinha da minha terra me ter dito que o Senhor Abade devia ter lido um livro novo, porque a homilia fora diferente e mais bonita. Eu presto a minha homenagem a padres muitos e muitos que são apaixonados pela leitura e, por isso, andam sempre em dia. Mas, deviam ser mesmo todos. A regra deve ser: um livro sempre comigo. Neste mundo novo e tão desafiador, sempre com ganas de mudar tudo e mostrar de tudo, devemos saber estar, responder, manter as pontes de pé.»
D. Manuel Martins. Bispo Emérito de Setúbal. in Página 1, de 17 Março 2011
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