Fundamentos

Marko Rupnik, «O Discernimento»

«O Discernimento»

Da Purificação à Comunhão

Marko I. Rupnik

ed. Paulinas | Lisboa 2004 | 238 págs. | PVP: 13,80 euros

 

Estou neste momento a ler o livro de Marko Rupnik «O Discernimento» (ed. Paulinas), que me está a impressionar pelo ‘diferença’ da sua escrita a que eu não estava a habituado. O autor é um jesuita esloveno, a viver em Roma, que se dedica ao aprofundamento da espiritualidade cristã oriental conjugando-a com a tradição jesuitica dos Exercícios – o Disercimento é, assim, o caminho do discípulo de Jesus que procura construir a sua vida na vontade de Deus, uma vontade de humanização e liberdade. Além disso, o autor é conhecido pela sua arte dos mosaicos, da qual temos, na Igreja da Ssm.ª Trindade em Fátima um belo exemplo.

Deixo um excerto que me está a dar que pensar , numa parte em que o autor se dedica ao discernimento dos pensamentos:

«Uma outra maneira de os antigos provarem o pensamento baseia-se na convicção de que o pensamento a ser evitado é aquele que vem de fora e que o homem o aceita porque exerce um grande fascínio sensorial e afectivo sobre ele, acabando por considerá-lo prioritário; ou porque se apresenta com tanta veemência e pressão que, impulsionados pela pressa, escolhemo-lo por ser o mais urgente para nós. Os antigos monges aconselhavam que se fizessem perguntas ao pensamento, tais como: ‘De onde vens? Do meu coração, onde habita o Senhor e, portanto, és um dos nossos, ou de fora e alguém te trouxe? Quem te trouxe? O que queres? Ao fazermos estas perguntas, percebemos imediatamente como o pensamento começa a reagir.

Os antigos aconselhavam, também, que se fizessem outras perguntas: «Porquê tanta pressa? Agora não tenho tempo para me preocupar contigo’. Ou: ‘Obrigas-me a andar à pressa, a dar imediatamente este passo, mas os santos disseram-e que tanto o Espírito Santo como o diabo querem que eu me torne santo, só que o diabo quer que eu me torne rapidamente’. Ao discípulo que perguntava o que é o pecado, um mestre espiritual respondia: a pressa.

Somos, portanto, convidados, mediante estas ‘estratégias’, a fazer o pensamento perceber que não lhe damos muita atenção, direccionando-a para alguma palavra de Deus, para alguma memória de Deus, ou simplesmente continuando aquilo que estamos a fazer. E, por meio dessa atenção à interioridade e com um certo desinteresse por aquilo que me assalta, começo a notar que esse pensamento não provém de dentro, mas que é estranho e vem de forma despersonalizadora, moralista, do tipo ‘tu deves’, ‘não está certo’, ‘é preciso reagir’, ‘é preciso defenderes-te’, etc.

A forma incisiva como tais pensamentos se impõem sob rótulos espirituais, religiosos, morais, éticos coloca o ser humano numa situação tal que o faz esquecer-se de que é livre. Pensamentos deste tipo tolhem a liberdade do homem, tornam-no obcecado pelas relações, pelos rostos das pessoas, aterrorizam-no com o sentido do dever, da urgência, até torná-lo desligado do amor e fazer com que se esqueça da livre adesão.

O pensamento que me impede de aderir livremente e de manter viva a consciência das relações é um pensamento estranho. O Espírito Santo não usa o imperativo ‘tu deves’. Na passagem do Evangelho que apresenta, em toda a sua grandeza, o discurso mais ‘programático’ – o sermão da montanha – Cristo fala dos ‘felizes’: o Evangelho é uma revelação, feliz de quem a ele adere. A Mãe de Deus, na hora da anunciação, também não respondeu ‘Sim, eu devo ser Mãe de Deus, senão o mundo não será salvo’.» (págs. 43ss)

Veja Também:

Obras de Mark Rupnik | Espiritualidade | Edições Paulinas

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