
«A Palavra que leva ao Silêncio»,
John Main, Pedra Angular, Lisboa 2011, 104 págs.
Qualquer livro que me surja sobre oração e meditação provoca-me, normalmente, uma certa desconfiança – talvez por estar habituado a ver estas obras conotadas com uma vivência um pouco individualista e privada da fé, alheia do compromisso libertador do Reino. Mas é um facto que o Mandamento de Orar vem do próprio Senhor – como o de Amar. E ambos são unidos. Como o autor, John Main, procurado viver o seu carisma de contemplativo – foi monge beneditino – se dedica a apresentar a oração e meditação cristã como fundamentais numa vida de seguimento de Jesus. E, inspirando-se nas cartas de Paulo, propõe essa vida no Espírito, de intimidade e oração, para todos os que se habituaram a dizer “isso não é para mim”, ou “gostaria, mas não tenho tempo”.
«A maior parte de nós estará, porventura, familiarizada com tudo o que até aqui escrevi. Sabemos que Deus é o nosso Criador. Sabemos que Jesus é o nosso Redentor. Sabemos igualmente que Jesus enviou o seu Espírito para habitar em nós, e temos alguma ideia acerca do nosso destino eterno. Mas a grande deficiência da maioria dos cristãos é que, embora conheçam estas verdades ao nível da teoria teológica, elas não vivem realmente nos seus corações. Por outras palavras, estas verdades são pensadas, mas não se concretizam. Conhecemo-las como proposições oferecidas pela Igreja, pelos teólogos, pelos pregadores nos púlpitos, ou nas revistas, mas não ganharam corpo enquanto verdades fundamentadoras das nossas vidas, como a base segura que nos inspira convicção e autoridade.
Nada há, pois, de essencialmente novo ou moderno quando ao contexto cristão da meditação. O seu fito é virar-nos para a nossa própria natureza com uma total concentração, experimentar a nossa própria criação em primeira-mão e, acima de tudo, orientar-nos e levar-nos a experienciar o Espírito vivo de Deus, que habita nos nossos corações. A vida deste Espírito dentro de nós é indestrutível e eterna e, neste sentido, as verdades que constituem o contexto cristão da meditação são sempre novas e permanentemente actuais.
Na meditação não procuramos ter noções sobre Deus nem tentamos pensar acerca do seu Filho, Jesus, ou a propósito do Espírito Santo. Pretendemos antes fazer algo de imensamente maior. Ao desviar-nos de tudo o que é passageiro, de tudo o que é contingente, não procuramos pensar acerca de Deus, mas estar com Deus, experimentar Deus como o fundamento do nosso ser. Uma coisa é saber que Jesus é a Revelação do Pai, que Jesus é o nosso Caminho para o Pai; outra de todo diferente é experimentar a presença de Jesus em nós, experimentar em nós o real poder do seu Espírito e, nesta experiência, sermos levados à presença «do meu Pai e vosso Pai».
Muitas pessoas estão, hoje, descobrindo que devem encarar o facto de que existe uma diferença relevante entre pensar acerca das verdades da fé cristã e experimentá-las, entre acreditar nelas por ouvir dizer e acreditar nelas a partir da nossa própria verificação pessoal. Experienciar e verificar estas verdades não é justamente a tarefa de especialistas na oração. As Cartas inspiradoras e jubilosas de S. Paulo não foram escritas a membros de uma ordem religiosa enclausurada, mas aos talhantes e padeiros comuns de Roma, Éfeso e Corinto.» (pág. 23ss)
John Main (1926-1982), nascido em Londres, fez carreira nos serviços diplomáticos británicos e, num destes serviços na Malásia, foi iniciado nas práticas orientais de meditação. Tornando-se beneditino em 1958, foi aconselhado a deixar estas práticas até as retomar já depois do concílio Vaticano II, no estudo dos Padres do Deserto (sobretudo João Cassiano). Em 1977 foi convidado pelo arcebispo de Montreal para criar uma nova comunidade beneditina empenhada no ensino da prática da meditação e oração a leigos.
PVP: 10,00 euros
Susbscribe to our awesome Blog Feed or Comments Feed
Boa noite, desconhecia esta livraria, talvez porque não passo normal e habitualmente por estes lados da cidade.
Gostaria de aproveitar este sítio de comentários para perguntar se acaso têm, ou poderão vir a ter, o livro “Sementes de Contemplação” de Thomas Merton? É um livro excelente que alugo, de vez em quando, na Biblioteca da UMinho porque não encontro nas três livrarias que conheço: Almedina, Bertrand e Fnac.
Muito obrigada por terem as portas abertas e aproveito para vos desejar continuação para serem e estarem.
Clara Cruz