«Em Louisville, na esquina da rua Fourth con Walnut, na zona comercial, senti-me de repente estupefacto ao dar-me conta de que amava a todas aquelas pessoas; todos eles eram meus, e eu deles; não podíamos ser estranhos uns em relação aos outros, ainda que fossemos completamente desconhecidos. Foi como despertar de um sonho de separação, de falso isolamento num mundo especial, o mundo da renúncia e da suposta santidade. Toda esta ilusão de uma existência separada era um sonho. Não que eu questionasse a realidade da minha vocação nem da minha vida monástica, mas o conceito de ‘separação do mundo’ que temos no mosteiro apresenta-se demasiado facilmente como uma absoluta ilusão: a de que fazendo os votos nos convertemos numa espécie diferente de seres, pseudo-anjos, ‘homens espirituais’, homens de vida interior, seja lá o que for.
É certo que estes valores tradicionais são muito reais, mas a sua realidade não é de uma ordem exterior à existência diária num mundo contingente, nem lhe dá o direito a desprezar o secular: ainda estando ‘fora do mundo’, encontramo-nos no mesmo mundo que os demais: o mundo da bomba (atómica), o mundo do ódio racial, o mundo da tecnologia, o mundo dos meios de comunicação de massa, dos grandes negócios, da revolução, e tudo o resto. Nós adoptamos uma atitude diferente diante de todas essas coisas, pois pertencemos a Deus. Mas todos os demais também pertencem a Deus. O que acontece é que nós temos consciência disso e fazemos profissão dessa consciência. Mas isso dá-nos o direito a considerarmo-nos diferentes ou melhores do que os outros? A ideia é de todo ridícula.»
in Thomas Merton, «Conjeturas de un espectador culpable», ed. Sal Terrae
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