Fundamentos

António Marujo, «Deus Vem a Público»

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Bom, mas não se fique a pensar que só há coisas boas para se ler em castelhano! Foi muito publicitada em 2011 a obra do jornalista do Público António Marujo, «Deus Vem a Público: Entrevistas sobre a Transcendência», no qual o autor consegue reunir, em entrevistas curtas de 5-6 páginas, 60 personalidades tão distintas do âmbito do Cristianismo e Religiões, figuras como o Irmão Roger de Taizé, Abbé Pierre, o Dalai Lama, Rino Fisichella, Hans Küng, etc, etc, etc. Testemunhos de temas tão diversos como a figura de Jesus, a Arte, o Diálogo Inter-Religioso, o lugar da Mulher, a Igreja, a Europa. Escolhi, para este post, um excerto de uma entrevista que António Marujo fez em 1999 a Jean Noel-Aletti, biblista italiano que se dedicou, de modo especial, ao Evangelho de Lucas:

«Muitos falam de Lucas como o Evangelho da Misericórdia. Foi por ser o exemplo mais perfeito dessa história de amor e misericórdia de Deus que escolheu esse texto? Sim. Gosto muito de Lucas porque foi ele que melhor compreendeu que Jesus veio trazer-nos a misericórdia de Deus. Mas isso eu só o descobri depois. O que sempre me interessou em Lucas foi a mestria narrativa. Fui sensível, primeiro, à capacidade de jogar com as técnicas narrativas para mostrar essa misericórdia. Mas a misericórdia, a espessura humana, a ternura – isso descobri-o depois (…)

A força de Lucas está no uso das parábolas? A força de Lucas é que ele diz coisas importantes de maneira discreta e fina. É alguém que quer dizer alguma coisa, mas não insiste. Marcos e Lucas são muito discretos. Mas também a Humanidade de Jesus me tocou, é um Evangelho que respira uma humanidade muito profunda.

Há o risco de se reduzir, com essa abordagem, a dimensão de Jesus como Filho de Deus? Penso que não. O Jesus de Lucas aparece como aquele que vai ao encontro dos pecadores, dos outros. Portanto, ele recorda-nos tudo o que há em nós de separação, de classificação das pessoas. É verdade que Lucas é discreto sobre a filiação [divina] de Jesus: fala dela nas narrativas da infância. Mas todo o texto, depois, é para mostrar como se é Filho de Deus, como ele foi Filho de Deus, como isso se realizou concretamente (…)

O Humor e os Silêncios são outros dois temas presentes no seu livro. É um exercício difícil, para um crente, descobri os silêncios significativos e o humor de Jesus. Jesus era um humorista? Sim, creio que sim. O Jesus menos divertido é o de São João. Mas em São Lucas temos exemplos concretos do humor de Jesus. De maneira discreta e delicada, ele mostra ter um sentido de humor concreto, faz compreender as coisas sem humilhar. O Jesus de Lucas não fere as pessoas, ajuda-as a ter uma dinâmica de perdão, de reconhecimento das imperfeições. Nesse sentido, Jesus é humorista, mas é também muito psicólogo.

E os silêncios: qual o modo de identificar os silêncios significativos de Jesus? Ao nível técnico, é na paixão de Jesus que os silêncios são mais significativos. Em nenhum momento Jesus diz mal dos que o condenam. O modo como a paixão se desenvolve diz bem que os silêncios de Jesus são importantes porque tocam os que o condenam. Na vida pública de Jesus, os silêncios significativos são também os que respeitam à culpabilidade dos discípulos. No Evangelho de Marcos, insiste-se na incapacidade dos discípulos em compreender. Quanto mais se entra no Evangelho, mais os discípulos são estúpidos, vaidosos, não percebem nada e, no final, traem e renegam. Lucas não faz isso. Há um tratamento dos discípulos que os desculpa, mas fá-lo de um modo nobre.» (pág. 37ss)

António Marujo, jornalista do Público desde 1989, tem-se dedicado a questões religiosas e recebeu por 2 vezes (1995 e 2006) o prémio de jornalismo religioso na imprensa não-confessional, da Fundação Templeton.

António Marujo, »Deus vem a Público: Entrevistas sobre a Transcendência», Lisboa 2011, 473 págs. PVP: 28,00 euros.

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