Fundamentos

Primeira Estrofe

livro2

«Olhei para Iosef pela primeira vez. Conhecia o seu rosto tranquilo, mesmo sob as moscas e o cansaço. Agora via um homem desolado que tentava gerir a situação planeando mentiras. Como deve a lei ser importante para os homens, se os reduz a isso. Disse: “Aquele homem mensageiro veio até mim ao meio-dia, as portas e as janelas abertas, escancaradas. Deparei-me de pé à frente dele no meu quarto e não pronunciei uma única sílaba, nem sequer respondi à sua saudação, quanto mais gritar”.

“Eu sei, Miriàm, mas agora temos de encontrar uma solução, dar uma versão da tua gravidez fora de lei. Miriam, eu amo-te, e peço-te isto porque acredito em ti e quero salvar-te. Miriàm, irão arrastar-te até às portas de Nazaré e lapidar-te. E irão pedir-me que atire contra ti a primeira pedra. Compreendes isso? Compreendes? Conheces a nossa lei.” E as palavras embargaram-se-lhe na garganta para não saírem em grito.

Lembrei-lhe de outras mulheres de Israel que tinham sido mães sob a anunciação de um anjo. Sara de Abraão, depois a mãe de Sansão. “Eram esposas, Miriàm, e eram esposas estéreis, o anúncio era pouco mais que um fertilizante. Os filhos eram sementes dos maridos, Isaac era filho de Abraão, Sansão, de Manoé. Tu és prometida, ainda não esposa, e o filho do teu ventre não é meu”.

Tinha razão, os homens conhecem a história sacra melhor do que as mulheres, podem estudá-la, ao contrário de nós. Eu calava. Não me importava. O que faziam os homens com as suas palavras, presos às suas fórmulas como cravos de madeira: não me importava.

Mulheres houvera em Israel que tiveram razão contra a lei. Agiram com o corpo contra os mandamentos e tornaram-se mães de Israel. Tamar, a cananeia, casa com dois filhos de Judas que morrem sem a engravidar. Judas promete-lhe o terceiro, mas depois volta atrás com a palavra. Tamar veste-se então de prostituta e vende-se velada a Judas, que não a reconhece. Como não traz dinheiro com ele, deixa por penhores o cajado e o cordão com o selo. No dia seguinte, manda o seu servo com a remuneração, mas não a encontra. Depois, espalha-se o rumor de que Tamar está grávida. Judas, que é o chefe da comunidade, acusa-a de adultério e condena-a ao fogo. Tamar exibe os penhores e afirma estar grávida do dono deles. Judas reconhece-os e diz perante a comunidade a mais bela frase que um homem de Israel pode dizer de uma mulher. “Foi mais justa do que eu”. Tamar infringiu a lei para poder aplicá-la, porque tinha o direito de ser mãe em Israel. Belo nome o de Tamar, palmeira que quer dar frutos.

Este enxame de pensamentos passava-se pela minha cabeça, mas não os dizia. “O que é que tens, Miriàm? Sorris? Não temos tempo, já está escuro e o encontro não pode durar mais. Temos de nos preparar e ainda não decidimos nada”.

Era feliz. Apetecia-me abraçar o meu Iosef, brotava-me no peito uma ternura por ele nunca antes experimentada. O respeito, a sujeição que nos ensinam para com a autoridade masculina diminuem os sentimentos carinhosos. Mas naquele dia a anunciação do anjo e a resposta do meu corpo tinham-me libertado. Não enrubescia, a confiança de estar com a razão conferia-me a desenvoltura necessária e uma nova compostura. Também o meu silêncio tinha mudado.

Com a ternura veio a gratidão. Ele tinha acreditado em mim. Contra todas as evidências, punha-se nas minhas mãos. Não movera no seu belo rosto um único músculo de suspeita, um franzir de sobrencelhas, um olhar oblíquo. E vira a sua Miriàm pela primeira vez, porque era a primeira vez que eu o olhava no rosto sem aixar a fronte, como nem as esposas se atrevem a fazer. Tinha acreditado em mim, sentia-me feliz e acalentada de gratidão por ele. “Faz aquilo que é justo, Iosef. Hoje sou tua mais do que antes, mais do que a promessa.»

 

 

Erri de Luca, «Em Nome da Mãe», ed. Quetzal 2007

 

 

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