Fundamentos

Dar Sentido ao Tempo…

…é o título de um sugestivo livro de Enzo Bianchi, traduzido pelos nossos amigos cariocas, sobre as festas cristãs que formam o Ano Litúrgico. Um excerto, porque o Tempo ainda não paga imposto

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«Em certas ocasiões, mesmo a simples sucessão dos anos é colorida por acentos inéditos que nos levam a descobrir a novidade que pode habitar até no mais comum dos dias. Assim foi nestes últimos anos. O fim de um século e de um milénio veio despertar lembranças e suscitar uma atenção bem maior do que o simples virar de uma página no calendário. Nesta altura, pode ser que também, sobretudo em meios não-religiosos, se tenha dado muita atenção às datas, aos aniversários, às memórias, às festividades.

Neste ponto, o cristianismo, enraizado desde as suas origens nesta sábia arquitetura do tempo que é a história da salvação, narrada já no Antigo Testamento e celebrada nas festas judaicas, esteve, desde sempre, atento a conceber o desenrolar o tempo não como uma sucessão cíclica de acontecimentos e de estações, mas como uma ocasião semrpe renovada pra a irrupção da eternidade na história.

“Sede santos” significa então “sede outros”, sede capazes de vos subtrair à sedução idolátrica quotidiana, que impede de ver para além dos horizontes, de ser “outro”, de sentir o inenarrável, de crer no indizível. Portanto, “santificar o tempo” significa viver diferentemente, viver o tempo conforme a intenção querida por Deus. Significa sobretudo afirmar que haverá um dia no fim dos tempos, mas que o fim, o objectivo do tempo é viver em comunhão com Deus. O tempo tem, portanto, um sentido preciso: pois o sétimo dia é o destino do homem e de toda a criação, a antecipação escatológica para toda a humanidade, a liturgia de toda a história, a transfiguração de todo o cosmos.

Desta forma, Deus quis impedir que a santidade, o existir “de forma diferente, outra” do homem, fosse relegada a uma dimensão mítica, inacessível. É aí que está o sentido profundo das festividades cristãs e, em torno delas, do simples desenrolar do ano litúrgico: do Advento, que transforma a memória da vinda do Senhor na carne em invocação do seu retorno na glória, ao Natal, em que essa presença de Deus entre os homens se torna “epifania”, manifestação que culmina na dança trinitária sobre as águas do Jordão; dos quarenta dias da Quaresma – quando os cristãos são convidados a converter-se ao Senhor, retornando a ele pelos simples gestos de cada dia: comer, falar, lutar, repartir… – até à semana da Paixão que desborda na Vigília, mãe de todas as vigílias, a santa noite da Ressurreição; dos quarente dias seguintes, que conduzem à Ascensão, até ao cumprimento da Páscoa na efusão do Espírito Santo, a manhã de Pentecostes, e até a celebração subsequente da comunhão do amor trinitário.»

Enzo Bianchi, «Dar Sentido ao Tempo: as grandes festas cristãs». Edições Loyola, São Paulo 2007

Veja também:

Obras de Enzo Bianchi | Edições Loyola

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@wpshower

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