Apesar de tudo,o Evangelho de João começa a missão de Jesus com um sinal de prosperidade-mas será a prosperidade que ansiamos e de que temos saudades?O Evangelho,com um comentário de Enzo Bianchi.Bom Domingo!
«Ao terceiro dia, celebrava-se uma boda em Caná da Galileia e a mãe de Jesus estava lá. Jesus e os seus discípulos também foram convidados para a boda. Como viesse a faltar o vinho, a mãe de Jesus disse-lhe: «Não têm vinho!» Jesus respondeu-lhe: «Mulher, que tem isso a ver contigo e comigo? Ainda não chegou a minha hora.» Sua mãe disse aos serventes: «Fazei o que Ele vos disser!»
Ora, havia ali seis vasilhas de pedra preparadas para os ritos de purificação dos judeus, com capacidade de duas ou três medidas cada uma. Disse-lhes Jesus: «Enchei as vasilhas de água.» Eles encheram-nas até cima. Então ordenou-lhes: «Tirai agora e levai ao chefe de mesa.» E eles assim fizeram. O chefe de mesa provou a água transformada em vinho, sem saber de onde era – se bem que o soubessem os serventes que tinham tirado a água; chamou o noivo e disse-lhe: «Toda a gente serve primeiro o vinho melhor e, depois de terem bebido bem, é que serve o pior. Tu, porém, guardaste o melhor vinho até agora!» Assim, em Caná da Galileia, Jesus realizou o primeiro dos seus sinais miraculosos, com o qual manifestou a sua glória, e os discípulos creram nele.»
(João 2,1-11)

A Igreja, antes de se ter dividido, celebrava na festa da Epifania do Senhor tanto a manifestação de Jesus aos Reis magos – aos gentios -, como a manifestação de Jesus ao povo de Israel no Baptismo e a manifestação de Jesus aos seus discípulos em Canã. Este ano a liturgia propõe-nos contemplar estes três mistérios na Epifania e nos dois domingos seguintes: por isso, antes de começar a escutar contínua da boa notícia no Evangelho de Lucas, detemo-nos hoje numa página do quarto Evangelho, «o início dos sinais realizados por Jesus» no episódio que teve lugar em Caná da Galileia.
Segundo o quarto Evangelho, o Evangelho «alternativo» comparado com os sinópticos, a actividade pública de Jesus começa com um «sinal», uma acção que, numa leitura superficial, pode parecer estranho. Em Caná, uma obscura aldeia da Galileia, celebra-se uma festa de bodas – a qual, segundo os costumes da época, durava vários dias – na qual está presente a mãe de Jesus. Mais tarde chega também Jesus com os seus discípulos. Mas, quem são os esposos? Porque nada se diz deles? Porque não intervêm? Este estranho silêncio representa para nós um convite a compreender com profundidade da narração: trata-se de descodificar uma mensagem exposta numa linguagem simbólica…
Pois bem, durante a festa das bodas acontece faltar o vinho e isto ameaça gravemente a alegria do convite. A mãe de Jesus dirige-se a este dizendo-lhe: «Não têm vinho». Ela não pede nada, não impõe ao filho o que ele deve fazer; simplesmente expõe-lhe a situação, respeitando plenamente a sua liberdade e remetendo-se à sua iniciativa. Jesus reage de modo duro, para inclusive que não reconhece o laço de sangue entre ele e a sua mãe. Chama-a de «mulher», como se se tratasse de uma desconhecida, e toma uma certa distância afirmando: «O que há entre ti e mim?» Mas estas palavras adquirem um significado diferente se recordamos que no momento de empreender a sua missão Jesus havía deixado a sua casa e a sua mãe, formando com os seus discípulos uma nova família (cf. Mc 3,20-21.31-35).
Depois Jesus acrescenta: «A minha hora ainda não chegou», palavra enigmática, antecipação de outro tempo que virá, da sua «hora» (cf. Jo 12,23; 13,1; 17,1): aquela na que através da sua morte e ressurreição se celebrarão as bodas definitivas entre Jesus, o Esposo, e a humanidade inteira… A partir do dia das bodas de Canã Jesus começa a caminhar para essa hora, dando começo ao seu caminho com um sinal preciso. A sua mãe indica aos servos: «Fazei o que ele vos disser», mostrando-se totalmente obediente ao Filho e pedindo que a sua palavra seja escutada e realizada: e imediatamente a água, que enchia algumas ânforas preparadas para um ritual de purificação, converte-se em vinho abundante. E então é possível a festa plena, o começo do tempo de noivado entre Jesus e a sua comunidade, a sua esposa (cf. 2Cor 11,2; Ef 5,31-33), profecia das suas bodas com toda a humanidade.
Por isso o evangelista comenta que com aquele primeiro sinal Jesus «manifestou a sua glória e os seus discípulos acreditaram nele»: as verdadeiras bodas que se celebram aqui são as de Cristo e da sua Igreja, através do vinho abundante do reino de Deus, das bodas messiânicas (cf. Is 25,6). Não é por acaso que, imediatamente depois deste sucesso, João o Baptista possa definir-se como «o amigo do Esposo» (Jo 3,29) que já chegou; mais ainda, escutando a voz do esposo que fala à esposa, quer dizer, a comunidade dos discípulos que agora já deixaram a João para seguir a Jesus, o próprio João exultará com um gozo indescritível…
Jesus é o esposo messiânico que veio celebrar as bodas com a sua comunidade, com aqueles que, aderindo a ele com toda a sua vida, procuram ser a esposa que Deus procura e ama sempre. Mas nós, os cristãos, temos ainda a consciência de ser a comunidade esposa de Jesus Cristo? Compreendemos já que todos os domingos, em cada liturgia eucaristica, somos convidados a celebrar a nossa aliança eterna com o Senhor, comungando o vinho novo e abundante do Reino na expectativa da sua vinda na glória? (cf. Ap 22,17-20).
Enzo Bianchi, «Hoy se cumple para vosotros la Escritura», ed. Sígueme, Salamanca 2009 págs. 93-95
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