Fundamentos

O Alto Voo da Cotovia

Escapou-me, da primeira vez que folheei o catálogo da Relógio d’Água. Chegou agora à Fundamentos: a poesia de Teresa de Lisieux, traduzida e apresentada por Maria Gabriela Llansol.

9789727085392

«O Alto Voo da Cotovia»

Thérèse Martin, de Lisieux (ou Teresa do Menino Jesus)

Tradução e prefácio de Maria Gabriela Llansol |

ed. Relógio d’Água | Lisboa 1999 | 309 págs. | 16,00 euros

«Falemos, pois, de amor. Li os seus poemas. Reparei que são, quase todos, de circunstância. Há-os longos, muito longos, e os breves, de corrida. Correctos, respeitam as formas da métrica e da rima. Coexistem octossílabos, cançonetistas com solenes alexandrinos e estes, não poucas vezes, são entremeados de tetrassílabos. Também não faltam dodecassílabos. Os versos nunca são brancos. As rimas, por regra, são cruzadas. Ora femininas, ora masculinas. Há-as aliterantes, consoantes e tonantes. Há-as igualmente encadeadas, as já referidas cruzadas e, embora quase nunca, interligadas.

Perguntam-me se é escritora. Respondo-lhes que, em escassos quatro anos, a poesia foi servida como mandam os manuais. Mas vou responder-lhes de outro modo. A Teresa entrou, de facto, no armazém dos sinais da literatura. Noto que foi buscar imagens e ritmos a Musset, a Chateaubriand e a Lamartine. Que entrou, se serviu como entendeu, e fez poemas. Também foi buscar pensamentos e palavras aos Evangelhos, a São João da Cruz, à mística carmelita. As freiras, suas irmãs, apreciaram. Tudo rimava, apesar de quase nada respirar. As ideias pareciam ortodoxas, as sonoridades não chocavam, a mobilidade rítmica introduzia movimento, algum drama, as imagens vinham quase todas da natureza e da vida familiar, os versos eram fáceis de cantar. Sim, porque os poemas eram para ser cantados.» (do prefácio)

«Meu Canto de Hoje»

«Este poema tem por tema a hora passageira de uma vida, | A hora que me toca e foge _ Uma vida, pois _ | Mas tu sabes, meu Amigo _ Para te amar | Não tenho outra, apenas esta _ instante, e sem depois.

Oh|, eu amo-te, Jesus! É para ti que minh’alma voa, | Só por hoje, peço-te, sê meu galho. Vem tomar | Meu coração. Ouves-me? Dá-me o teu sorriso, dá | Apenas hoje, e sem depois.

Que me importa, Amigo, se o futuro é sombra? | Pedir para depois, oh!, não, é impossível. | Guarda-me o coração claro, cobre-o | Com a tua mão, e apenas hoje.

Se penso em depois, sei-me inconstante _ Temo _ | No coração sinto nascer tristeza e tédio. | Não quero sofrer? Perguntas-me. Por ti sim, | Apenas hoje. Sem prometer.

Em breve, ver-te-ei nas margens da eternidade _ | Diz-me o Amigo que me toma pela mão. | Nas vagas alterosas guia o meu desequilíbrio. | Apenas então. Sim?

Oh! Deixa que me esconda no teu rosto Jesus | Onde o murmúrio vão do mundo não me aflija. | Dá-me o teu amor. Guarda-me no teu fulgor | Apenas hoje, e sem medida.

(…)

1 de Junho de 1894 (pág. 39)

Veja também:

Obras de Teresa de Lisieux | Fontes | Edições Relógio d’Água

 

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