Fundamentos

O Mistério Pascal em Símbolo e Drama (2)

«O Querubim: Desde o dia em que Adão saiu / entrar aqui ninguém vi. / A tua estirpe foi expulsa do Jardim. / Tu não entras. Não contestes!

O Ladrão: Desde o tempo em que Adão pecou / contra a nossa raça se irou o teu Senhor, / mas reconciliou-se e abriu a porta. / Que tu permaneças aqui é (agora) supérfluo.» (n.16-17)

«O Querubim: Hoje qualquer coisa de novo vi, / uma procissão que entra no Jardim. / Eis que vi os passos de Adão / que (precisamente) daqui saiu e não mais voltou.

O Ladrão: Jesus, o teu Senhor, fez novidade, / pois libertou Adão que estava preso, / e reergueu os defuntos dos infernos / e enviou-me a precedê-los e a abrir-lhes.» (n.26-27)

Todo o Drama de «O Ladrão e o Querubim» é uma troca de argumentos entre o Querubim que Deus colocou a guardar o caminho da Árvore da Vida (Gen 3,24), e o Ladrão ou Malfeitor a quem Jesus prometeu estar no Paraíso (Lc 23,42-43). Mais uma vez, estamos a lidar com uma linguagem litúrgica, de natureza simbólica, sobre um Mistério de Vida e de Sentido que nos ultrapassa (e que uma notícia de jornal não consegue transmitir-nos). No meio deste diálogo, desta disputa, está o Mistério Pascal de Jesus e, em Jesus, de toda a Humanidade.

A. Gesché, teólogo belga, chamou a atenção para a “sombra” negativa que, por vezes, a mensagem cristã transmitiu sobre a Humanidade – como se uma maldição tivesse recaído sobre esta, como se a Humanidade estivesse irremediavelmente condenada, e apenas por um milagre, pudesse ser salva. Esta compreensão partiu de uma certa leitura dos textos do Génesis, como se o mundo ideal estivesse no princípio, um paraíso terrestre, mas, por uma “queda”, toda a Humanidade ficasse condenada. Erradamente transmite-se esta compreensão à noção tradicional de Pecado Original.

Esta visão é muito comum em diversas religiões e mitologias, mas não é uma visão cristã, ou bíblica. Para a Bíblia, o mundo perfeito está no fim, no cumprimento da história, e não no princípio. Os textos do Génesis não são relatos históricos, mas – outra vez – simbólicos, pretendem ler a realidade presente transportando-a para um relato dos primórdios. E o presente é simples: apesar de o Projecto de Deus ser de uma Criação Boa, Harmoniosa, a verdade é que esta Criação vive marcada pelo pecado – Caím assassina Abel. E não é preciso ser pessimista para ver este facto – assim como não se é optimista negando-o.

Mesmo assim, Deus não desiste da Humanidade, e essa é a grande Boa-Nova bíblica e evangélica. Não porque a Humanidade esteja condenada ou amaldiçoada, mas porque Deus está envolvido na sua reconciliação – na reconciliação da própria Humanidade onde Caím assassina Abel, e onde o Justo é Crucificado, e onde não há outra solução para o Ladrão senão a sua crucifixão. A Humanidade, basta vê-lo, é capaz disto. Mas isso não quer dizer o próprio Deus seja capaz “apenas” disto.

A Ressurreição é toda uma outra realidade, e o diálogo entre o Ladrão e o Querubim está aí para o mostrar. A Ressurreição é o emergir, já na história e para além dela, deste “Jardim” que mais não é do que a Humanidade Fraterna, o Reino de Deus, um Reino e uma Humanidade que vencem a morte. Um Reino e uma Humanidade novos onde o primeiro lugar pertence ao Ladrão. Porque quem se considera sem pecado é o primeiro a lançar a pedra com que mata o irmão (Jo 8,7),e é incapaz de dizer a única oração que nos justifica: «Senhor, tem piedade de mim» (Lc 18,13-14). (Na imagem, Ícone da Ressurreição ou Descida aos Infernos; as citações são de «O Ladrão e o Querubim», Pedra Angular, Lisboa 2012)

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