Fundamentos

O Mistério Pascal em Símbolo e Drama (3)

«O Querubim: Ó sicário, afinal quem és tu? / Ó assassino, quem te mandou? / A espada flameja contra ti / e uma lança de fogo te vigia.

O Ladrão: Não temas, ó servidor do rei! / Dissolveu-se o teu poder que o Senhor estabeleceu. / Trouxe-te a cruz como sinal. / Observa se é genuíno. Não contestes!

O Querubim: A Cruz de Jesus que me trouxeste, / não me atrevo sequer a vê-la. / Ela é verdadeira e terrível. Não (mais) serás impedido. / Vem e entra no Éden porque Ele assim quis.

O Ladrão: «A Cruz do Filho rompeu a barreira / que ele levantou entre nós e vós. Passou a ira e fez-se a paz / e o caminho do Éden (já) não está interrompido.» (n. 40-43)

Outra das críticas comuns ao cristianismo é a sua visão dolorista, que atribuiria valor ao sofrimento e à morte. Como se o sofrimento e a morte fossem bons em si mesmo… Deste modo estaria justificado o sofrimento das vítimas da história, sofrimento na maioria das vezes fruto da injustiça e da mentira. Porque quando contemplamos a Paixão de Jesus, é a injustiça e a mentira que marcam presença – embora, a suprema Liberdade do Filho seja dar a vida pelo Reino que anunciou. Mais grave seria considerar todo este processo vontade do Pai, como se Pilatos e Herodes fossem mediação de Deus…

Nos primeiros séculos, a Cruz constituía um escandâlo para os cristãos – que tendiam a representar a Jesus de outros modos, como o Bom Pastor ou o Mestre da (nova) Lei. Isto apesar da pregação de Paulo, que fala do escândalo da Cruz (1Cor 11,23) – mas não no sentido de elogio ao sofrimento em si, senão como resposta a todos os messianismos triunfalistas. O “elogio” da Cruz é o elogio ao Filho que, diante da ameaça de morte, não deixa de subir resolutamente a Jerusalém (Lc 9,51). O elogio da Cruz é o elogio da Páscoa que nela tem lugar, da entrega do Espírito (Jo 19,30). O elogio da Cruz é o elogio do Projecto Salvador de Deus que nela encontra o seu Cume, um Projecto de Vida que vence todas as mortes, e sobretudo as mortes de cruz, as de ontem e as de hoje.

E por isso, todos podemos, hoje, apresentar uma pequena cruz de madeira. Uma cruz que dissipa, que transforma em nevoeiro todas as imagens e experiências de um deus violento, de um deus dos violentos, de um deus com espadas de fogo e veredictos de condenação. «Despontou-se a tua espada e perdeu calor», diz o Ladrão ao Querubim (n. 31). Um deus de sistemas que crucificam a ladrões e crucificam a justos – porque a Cruz é a de um Deus que não crucifica a ninguém, ladrões e justos, mas um Deus que está presente nos crucificados. E quando se revela como Juíz, dá o seu veredicto: «Hoje mesmo estarás comigo no Paraíso».

Não é o lugar para entrar em estudos de Escatologia, sobre o Tempo de Salvação, o Juízo, os Novíssimos, etc. Nem o Drama de «O Ladrão e o Querubim» tem esse objectivo, como os autores da introdução e do posfácio bem o realçam. É um texto de Contemplação e de Alegria. Porque, ao acompanharmos o diálogo, vamo-nos descobrindo numa Presença, que o Evangelho de João apresenta com o nome grego de Paráclito, e que se traduz por Advogado, Consolador. O Paráclito é aquele que se levanta e se coloca ao lado de um arguido num processo. E poderemos proclamar com Paulo: «Portanto, agora não há mais condenação alguma para os que estão em Cristo Jesus. É que a lei do Espírito que dá a vida libertou-te, em Cristo Jesus, da lei do pecado e da morte» (Rom 8,1-2).

Deixe um comentário

@wpshower

Feeds

Susbscribe to our awesome Blog Feed or Comments Feed