Fundamentos

Um Cristão no Trono de S. Pedro

No seu livro ‘Homens em Tempos Sombrios’, num grupo de 9 personagens faz parte João XXIII, de quem Hannah Arendt traça um retrato inspirando-se sobretudo no Diário da Alma. Aqui fica um breve excerto:

Imagem1

«Journal of a Soul (Diário de uma Alma, Nova Iorque, 1965), o diário espiritual de Angelo Giuseppe Roncalli, que ao ser eleito papa tomou o nome João XXIII, é um livro estranhamente decepcionante e estranhamente fascinante. Escrito, na sua maior parte, em períodos de recolhimento, compõe-se, de forma extremamente repetitiva, de efusões e auto-exortações piedosas, ‘exames de consciência’ e registos de ‘progressos espirituais’, com raríssimas alusões a acontecimentos reais, apresentando-se, ao longo de páginas e páginas, como um manual elementar sobre o modo de ser bom e evitar o mal.

E todavia, à sua maneira, estranha e invulgar, consegue dar uma resposta clara a duas perguntas que perpassavam pelo espírito de muita gente quando, no final de Maio e início de Junho de 1963, João XXIII jazia no seu leito de morte no Vaticano. Quem me chamou a atenção para elas, de uma forma muito simples e inequívoca, foi uma criada romana que me disse: ‘Minha senhora, este papa era um verdadeiro cristão. Como é que isso foi possível? Como pôde um verdadeiro cristão sentar-se no trono de S. Pedro? Pois não teve primeiro que ser nomeado bispo, e arcebispo, e cardeal, para finalmente ser eleito papa? Ninguém se terá apercebido de quem ele era?’

Ora a resposta à última das suas três perguntas parece ser ‘Não’. Ele não pertencia ao grupo dos papabile quando entrou no conclave; os alfaiates do Vaticano não tinham preparado vestes à sua medida. Só foi eleito porque os cardeais não conseguiam chegar a acordo e se convenceram, como ele próprio escreveu, de que ele ‘seria um papa provisório e de transição’, sem relevância de maior. ‘E no entanto aqui estou’, prosseguia João XXIII, ‘prestes a iniciar o quarto ano do meu pontificado, com um imenso programa de trabalho à minha frente, para ser executado ante os olhos do mundo inteiro, que está atento e à espera’. O que é assombroso não é que ele não tenha feito parte do grupo dos papabile mas que ninguém se tenha apercebido de quem ele era, e que tenha sido eleito por toda a gente o considerar como uma figura irrelevante.»

In Hannah Arendt, Homens em Tempos Sombrios, ed. Relógio d’Água, Lisboa 1991, pág. 73

Deixe um comentário

@wpshower

Feeds

Susbscribe to our awesome Blog Feed or Comments Feed