Para hoje, dois autores em destaque: Daniel Faria (na foto) e Maria Gabriela Llansol; é sobre eles que nos fala, numa breve entrevista, o pe. Mário Garcia sj.

O pe. Mário Garcia é jesuíta e professor na Faculdade de Filosofia de Braga; de 21 a 23 de Março de 2014 orientará em Soutelo (Vila Verde) um fim-de-semana de Exercícios Espirituais com o tema «Rezar com Daniel Faria e Maria Gabriela Llansol». Convidámo-lo a falar-nos brevemente destes dois autores.
– Em Março do próximo ano orientará, em Soutelo, Vila Verde, um fim-de-semana de retiro com o tema «Rezar com Daniel Faria e Maria Gabriela Llansol». Pode fazer-nos uma primeira apresentação destes autores?
Daniel Faria (1971-1999) é, talvez, a maior revelação na poesia portuguesa dos últimos 20 anos. Morreu sendo noviço beneditino, depois de passar pelo curso completo de preparação para o sacerdócio no Seminário do Porto e da licenciatura em Estudos Portugueses na Faculdade de Letras da Universidade do Porto.
Maria Gabriela Llansol (1931-2008), escritora de difícil leitura e impossível “catalogação”, licenciada em Direito e especializada em Ciências pedagógicas, viveu muitos anos na Bélgica, escreveu sem cessar uma Obra de extraordinária densidade expressiva e narrativa, muito longe ainda da “exploração” que merece.
– Daniel Faria deixou-nos uma obra poética fortíssima, apesar de a sua vida ter sido precocemente interrompida. O que o atrai na Poesia de Daniel Faria (reunida primeiro pela editora Quasi e actualmente pela Assírio&Alvim)?
A originalidade da Poesia como lugar de encontro e abertura ao Transcendente Pessoal.
– Pode «abrir o pano» e comentar-nos algum Poema de Daniel Faria que utilizará durante o retiro de Março do próximo ano?
Dos líquidos (1ª ed. 2000):
Entro. Conheço a minha casa. É mansa
Sinto-lhe a respiração. Dorme sobre os meus pés
À chuva
Estende o patamar aos primeiros rios
Mora nas margens para ser a mais matinal
Das nascentes – a escuta
Junto na concha das mãos as palavras
Iniciais. Posso dar de beber
Aos que caem
Aos que encostam o ouvido à orla
Marítima. À bainha da mãe
Posso juntar as margens. Ou soltar a água
E correr
O verbo, como categoria gramatical prevalente, estabelece uma hierarquia de movimentos, como de sístole e diástole, à volta de um núcleo animado: a casa – a escuta – a mãe – a água. Dir-se-ia compenetrarmos, numa única imagem cósmica, a vida que não cessa, porque brota do coração e desagua na eternidade. Tudo é mar, porque tudo é graça e dom.
– Maria Gabriela Llansol continua a ser uma autora relativamente desconhecida do nosso público, talvez pela sua escrita muito original. O que o levou a incluir no próximo retiro textos de Llansol?
A Espiritualidade alargada, misteriosa e mística, da Vivência do dia-a-dia.
– Além das suas obras, Llansol fez numerosas traduções para português de autores como Rilke, Baudelaire e… Teresa de Lisieux («O Alto Voo da Cotovia», Relógio d’Água 1999). Nas suas referências a Teresa, Llansol fala muito de um Amigo. Pode falar-nos um pouco sobre este Amigo na obra de Llansol?
Mais do que na tradução de Santa Teresa de Lisieux, no sublime Amigo e Amiga. Curso de Silêncio de 2004, publicado em 2005, na Assírio & Alvim. É neste livro que, sobretudo, gostaria de fixar-me: “Deve ser um sentimento de permanência antecipado que, de qualquer modo, se realizará por uma abertura que eu não delimito, nem com um mínimo de dor, nem em termos concisos” (p. 14).
– Qual é o lugar da Poesia e da Literatura na sua experiência de jesuíta, presbítero e professor?
A Poesia e a Literatura são, para mim, uma espécie de clareira nas “florestas de símbolos”, de que fala Baudelaire no soneto “Correspondências”. Rodeado de árvores de todos os tamanhos, cheiros e texturas, deixo-me levar por elas para o céu.
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