
A Igreja que eu Amo
Bernhard Häring, ed. Figueirinhas, Porto 1992
«Caro Padre Häring:
Ponho-me de pé para te falar. É que há homens de tal estatura, que nos sentimos instintivamente na necessidade de nos levantarmos, logo que adivinhamos a sua presença. Desde há muito que te conheço e gostaria de copiar da tua vida rica várias linhas de força que muita falta fazem à minha:
1. A tua liberdade interior. Pela tua fé em Cristo livre, quero dizer, ressuscitado, conseguiste quebrar as algemas que te impediam de cantar a sério a grandeza de Deus que se espelha na dignidade divina do homem. Nós andamos cheios de medos. Mesmo aqueles que mais falamos em liberdade e em coragem. E o que é pior é que frequentemente tais medos andam misturados com a fé! Medo de falar, medo de dar a mão, medo de fazer ponte, medo de sorrir, medo de semear esperança, medo de cantar. Poderei, nestas condições, continuar a dizer que o meu Senhor vive, que Jesus fala? Tu és o homem da coragem, o homem que venceu os medos, porque o homem que acreditou a sério em Jesus Cristo.
2. O teu amor à Igreja. O amor prova-se na angústia e no sofrimento. E só assim gera a alegria. Cristo amou de tal maneira a Igreja, que deu todo o Seu sangue por ela. Tu amas profundamente a Igreja. A tua vida é um testemunho eloquente desse amor. E, por isso, quanto não tens sofrido por ela e com ela! Mas sempre fiel. Até às lágrimas. Até ao sangue. Quando amamos alguém, abundam os sonhos lindos a seu respeito. E como tu sonhas com a Igreja, a de hoje, mas sobretudo com a de amanhã, que gostarias de ver amplamente aberta aos sopros do Espírito, para que, por causa da nossa pequenez, não viesse a faltar, abundante e fresca, a água da salvação para todos os homens. Amar é querer bem; é perspectivar o futuro; é sonhar. Como é belo e reconfortante conhecer e comungar os teus sonhos!
3. A tua comunhão com Cristo. Entendeste cedo que Jesus Cristo ou se comunga na vida, ou se não comunga. Andamos sempre a dividi-lo, o que, na Moral de todos, se chama sacrilégio. E o espírito fala-nos nas angústias dos homens, nas encruzilhadas sangrentas dos caminhos, no estalar das lutas e das inquietações das consciências. E aqui não valem receitas velhas, de validade ultrapassada. Não. É preciso sair (a lei da tenda) e ouvir e comungar. Com lucidez; com humildade; com coragem. Com fé. A tua vida é um testemunho e um exemplo deste interesse, desta atenção, desta comunhão. E que é a Moral senão isto?
Poderia continuar. Quero, porém que sejam os outros a descobrir o resto e, porventura, o melhor. Neste livro e noutros. Afinal, na tua vida. Quando pregaste no Vaticano, o Papa Paulo VI pediu-te que falasses com franqueza. O Papa precisa de quem lhe fale com franqueza. Foi o que fez também uma alma gémea da tua, o célebre Bispo do Porto, D. António Ferreira Gomes. O Papa precisa de que lhe fale com franqueza. E nós também. Obrigado, Padre Häring.»
Manuel da Silva Martins, in Prefácio
215 págs. PVP: 16,00 euros
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