Sem dúvida um dos objectivos de Manuel Clemente, bispo do Porto, na sua mais recente publicação «Igreja e Sociedade Portuguesa», como na sua própria vida de investigador e historiador, é compreender a presente realidade da Igreja, particularmente da Igreja Portuguesa e particularmente das relações entre a Igreja e a Sociedade Portuguesas, à luz da sua história recente. Com esta publicação, que através de uma ampla série de artigos e conferências reunidos sob o tema das relações entre Igreja e Sociedade durante os períodos políticos do Liberalismo e República (séculos XIX e primeiras décadas do século XX), podemos ter mais uma ajuda na compreensão das raízes históricas do que vivemos hoje.
Num artigo de 1849, no jornal A Nação, é efectuada uma crítica observada durante as celebrações da Semana Santa daquele ano, em Lisboa: «Aos srs. pregadores é forçoso dizer que não compreendem a época em que vivem. Falamos em geral, conquanto as excepções sejam raríssimas. Estudam os antigos sermonários, em vez de estudarem a Bíblia, os Doutores da Igreja, os grandes modelos, e sobretudo, e depois de tudo o tempo, este tempo em que hoje estão […] Os sermonários dirigiam-se principalmente ao coração, e isso bastava; pressupunham grandes convicções, buscava enternecer, enterneciam, e a missão estava completa. Hoje é necessário maior trabalho; outros meios, outro caminho. É preciso falar à inteligência […] O orador sagrado tem hoje obrigação de convencer, antes de comover, e para poder comover» (pág. 21). Estamos numa época em que, como bem realça o autor, as estruturas necessárias para a formação intelectual do clero se encontravam fortemente limitadas: desde as destruições provocadas pelas Invasões Francesas até à expulsão ou semi-clandestinidade das Ordens Religiosas, passando pelo fecho ou existência limitada dos seminários diocesanos – numa situação que durou praticamente todo o século XIX.
Um fenómeno muito realçado pelo autor é o surgimento, durante o século XIX, de uma – ainda que limitado – consciência laical assumida e responsável pela vivência da fé. Este fenómeno pode explicar-se, segundo Manuel Clemente, precisamente quer pelo fim de um Estado absolutista que, embora mantendo-se confessional (as constituições do regime liberal continuam a referir a “religião católica romana” como religião de Estado), confere liberdade de pensamento. A este facto acresce outro: o fim ou limitação das ordens religiosas deixou um campo vazio no que toca quer à reflexão intelectual sobre a fé quer às actividades de evangelização. Além disso, os próprios leigos – sobretudo de classes mais altas, com possibilidades de formação – detinham uma liberdade de expressão na sociedade maior do que os próprios bispos (não esqueçamos que não só os bispos, como os próprios párocos eram, no século XIX, nomeados pelo governo, muitas vezes sem consulta de Roma).
«Por isso serão de leigos alguns dos principais escritos religiosos do século XIX, tanto em tradução de obras estrangeiras como em criação própria, no jornal ou em livro. O mesmo se diga quanto às iniciativas práticas, face ao empobrecimento religioso do país, resultante tambem das lutas liberais e da divisão religiosa que se seguiu até 1841 (…) Logo em 1843, a Sociedade Católica, onde entravam vários leigos, propôs-se recristianizar o país, reativar as missões ultramarinas e melhorar a formação do clero; e nem o seu fracasso evitou que tais e outros objectivos coincidentes fossem procurados por leigos isolados e, ainda mais, pelo associativismo católico, a partir dos anos de 1870, com participação laical relevante» (pág. 97).
Sobre este ponto comenta Manuel Clemente: «A crescente mentalidade laicista estranhava em tais iniciativas católicas a projeção social da crença, considerando-a um exagero descabido e os seus protagonistas como “beatos”. E, tratando-se de leigos, objetando-lhes que tanto interesse pela religião era mais próprio de padres e frades. É neste quadro, porém, que a autoconsciência laical se vai formar ainda mais: afirmando o direito e o dever do crente secular a intervir como tal nos assuntos religiosos; reforçando as consequências sociais da fé; e demonstrando ao mesmo tempo a distinçã e a possível harmonia entre a vinculação eclesial e a cidadania política» (pág. 104).
A partir do momento em que, lentamente, cidadania portuguesa deixa de se confundir com pertença religiosa/católica, nasce uma nova consciência laical de necessidade de reflectir e assumir a condição cristã face a uma sociedade liberal – e, depois, republicana – que vê muitas vezes com suspeita esta condição. É neste período que cresce, em Portugal como à semelhança do resto da Europa, um fenómeno muito próprio do século XIX: o chamado “montanismo”, uma afeição pública e reiterada à figura do Papa como reacção às tentativas do regime liberal de subordinar a Igreja a uma função meramente social de controlo moral da população (“montanismo” de “monti” ou montes, referindo-se aos Alpes). Afirmar a pertença a Roma era um modo de realçar a liberdade política dos próprios cristãos, de proclamar que a Igreja não era um “departamente estatal” mas tinha uma posição própria face à sociedade – porque a influência da Igreja nas consciências das pessoas, sobretudo das populações menos formadas, era uma tentação muito grande para usar essa mesmo influência a favor de determinado regime político – e a fidelidade a Roma era um modo de separar confissão religiosa e participação política.
Ler a história é um passo fundamental para compreender o presente que vivemos – também no que toca à vida da Igreja e às suas relações com a Sociedade. Ler a história é muitas vezes encontrar comparações e paralelos que muitas vezes nos surpreendem. E ler a história pode também ajudar a ver como sempre as situações de crise e dificuldades geram – sem as justificar, claro – oportunidades novas. Sem dúvida, será esse um dos muitos contributos deste livro, agora à nossa disposição.
Manuel Clemente, «Igreja e Sociedade Portuguesa: Do Liberalismo à República», ed. Assírio&Alvim, Porto 2012, 566 págs.
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