Existem livros que chamam a atenção pela originalidade dos seus títulos e dos temas que abordam – é o caso desta investigação levada a cabo por Hugo Cáceres Guinet, religioso da Congregação dos Irmãos Cristãos (fundados em 1802 na Irlanda por Edmund Rice e presentes actualmente em 9 países). Porque muitos livros e tratados foram dedicados a Jesus como pessoa humana, na sua humanidade; mas poucos foram dedicados à sua masculinidade, aos traços e matrizes especificos em como essa humanidade foi vivida.
O livro é-nos aberto imediatamente com o testemunho de um grupo ao qual pertencem homens vítimas/culpados de exercerem violência doméstica nas respectivas esposas: ««Henry chora copiosamente porque nunca percebeu como chegou a converter-se em espeso e pai violento; ele afirma entre lágrimas que ama a sua esposa e às suas filhas, mas que as castiga fisicamente porque assim é a vida, a família, o mundo… A dupla de psicólogos que dirige o grupo de homens lastimados pela mesma ideologia diz-lhes: ‘Vocês são culpados e vítimas de uma ordem social que pode mudar, e existem outros modelos de varões» (pág. 11). É a esta temática que o autor dedica os primeiros capítulos da sua investigação (dividida em seis capítulos: «A pesquisa sobre Jesus, o Varão», «A Masculinidade no Mundo Mediterrânico Antigo», «Jesus, o Celibatário», «Um Celibatário em Companhia Feminina», «Jesus e as Crianças», «Jesus e a sua relação com os outros Varões» – tradução livre).
A masculinidade não é apenas um dado biológico ou sexual adquirido a partir da natureza – é também, e sobretudo, uma construção social. «A masculinidade é sempre temporal, provisória, e inclusive está em crise permanente para se manter inalterada. Inclusive a linguagem popular entende este conceito através de uma falácia: uma mulher é sempre uma mulher, mas um homem pode deixar de o ser segundo a sua conduta. Aquele que nasceu com o sexo masculino recebe da sociedade na qual vive o imperativo de viver como homem. Esta pressão, que é causa de muitas ansiedades, vem de uma construção social que se apoia no patriarcalismo e no seximo (…) Os latino-americanos e os hispánicos somos dependentes da construção da masculinidade que teve lugar no mundo mediterrânico antigo e que se manteve firmemente estável até aos princípios do século XX» (pág. 25). Deste dado conclui o autor: «Nesta construção não há nada de natural nem planificado por Deus. A masculinidade é uma realidade tão construida como foi construído o templo de Jerusalém, e portanto é temporal (Mc 13,1-2). Ser masculino é uma identidade psicológica, um papel social, um lugar na força laboral e um sentido do sagrado. Aprofundar o modelo de masculinidade de Jesus ajuda aos homens e mulheres a desmascarar as complexidades dessa construção e a apreciar o projecto evangélico de uma nova masculinidade.» (pág.26)
Biblista de formação, o autor analisa os textos e chama a atenção para as suas particularidades: por exemplo, o verbo servir, diakoneo (de onde surge diácono), que os Evangelhos utilizam para falar da missão de Jesus e dos discípulos (Mc 10,45; Lc 22,26-27) é tipicamente um verbo feminino no I século da era cristã; ao mesmo tempo, quando Jesus chama a atenção a Marta, em Lc 10,38-42, realçando a escuta de Maria, está a realizar uma transformação dos papeis sociais: o papel de servir era da mulher, a Palavra era assunto de homens. O texto de Lc 7,36-50, no qual num banquete em casa do fariseu Simão Jesus é banhado nos pés por uma mulher, é analisado pelo autor um pouco na perspectiva da inveja que dito gesto terá provocado no ambiente masculino próprio de um banquete ou simpósio: «Há outra sensação natural que deve ter acompanhado o prazer da unção, tal como qualquer varão a experimenta no eterno jogo dos géneros. É o de sentir-se privilegiado, único, entre vários varões (…) A maturidade sexual de Jesus não o conduz a comprazer-se neste sentimento que o distanciaria dos restantes varões. Ele não entra no jogo da competência entre machos, senão que este privilégio o conduz a ensinar outras formas de vínculos humanos, libertas de poder e relacionadas com o serviço» (pág. 175).
Além de uma abordagem bíblica e psicológica, o autor destaca os aspectos sociais: da inovadora relação de Jesus com as crianças, acolhendo-as e apresentando-as como exemplo ao invés de as separar, nasce um novo modelo de paternidade que não limita o cuidado pela vida prenatal e pósnatal à mãe. O acompanhamento dos filhos por parte dos pais é tradicionalmente limitado à componente económica e disciplinar, e na Igreja ainda não é destacada uma proposta de uma nova paternidade (pág. 216). Do mesmo modo, as passagens que destacam a proximidade de Jesus com outros varões (o lava-pés de Jo 1,1-20, o diálogo entre Jesus e Pedro de Jo 21,15-19, a amizade por Lázaro de Jo 11,5, o Discípulo Amado que se recosta no seio de Jesus na Última Ceia em Jo 13,21-30 (a mesma palavra “seio” é utilizada em Jo 1,18 para afirmar que o Verbo está no seio do Pai), quando libertas de interpretações sexuais estritas, permitem descobrir um novo modelo de relações masculinas marcadas não pelo poder, rivalidade ou honra mas pela proximidade emocional (pág. 225).
Deste modo conclui o autor: «O tema da sexualidade de Jesus é um assunto facilmente banalizado. A aceitação plena da Encarnação supõe uma reflexão cristológica apoiada num são apreço da corporeidade humana. Esta tarefa, se não é assumida pela teologia, cai nas mãos de especulações de tipo jornalístico, ou fica paralisada por uma estranha desconfiança na humanidade do Verbo» (pág. 255). E continua: «Os convites à reconstrução da masculinidade dominante são um elemento essencial do seguimento de Cristo por parte do varão cristão contemporâneo. Integrar uma nova relacionalidade de acordo com a exemplificada pelo Mestre na sua equidade para com as mulheres, no seu contacto e cuidado da infância e na sua proximidade emocional junto de outros varões é uma tarefa pendente dos discípulos varões (…) A espiritualidade masculina cristã está à espera de futuros desenvolvimentos e deverá incluir a kénosis da masculinidade hegemónica para reconstruir audazmente um modelo novo de ser varão, anawim libertos do peso do patriarcado e colaboradores com as mulheres no estabelecimento de umas relações justas». (pág. 256)
Hugo C. Guinet, «Jesús, el Varón-Aproximación Bíblica a su Masculinidad», ed. Verbo Divino, Estella 2011, 270 págs.
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