Fundamentos

M. Hennezel, Diálogo com a Morte

9789724607931

Diálogo com a Morte

Marie de Hennezel. Casa das Letras 2000, 174 págs. PVP: 12,90 euros

É um olhar sobre a morte, que pretende reflectir a vida. Tendo como cenário a Unidade de Cuidados Paliativos do Hospital Universitário de Paris, a autora relata-nos os momentos “finais” de alguns dos pacientes terminais com quem privou. Pautado de memórias, é um livro que foca essencialmente a transmissão de mensagens de esperança e de força de viver.

Maria: “Quando vim vê-la, foi do filho de doze anos que ela quis falar. Chorou imenso. Deixar atrás dela aquela criança, que não vai ver crescer, que não poderá nem proteger nem consolar quando a vida o ferir, é esse o seu verdadeiro sofrimento. O seu coração encontra-se desmedidamente inconsolável. Eu própria tenho um filho da mesma idade e a dor desta mulher deixou-me transtornada. Há alturas em que tenho a impressão de já não poder ajudar ninguém, de por minha vez me afundar. Chorámos juntas, pois eu não sabia fazer outra coisa. Curiosamente, às vezes é isso que ajuda. Foi assim que ela me falou do Pedro. Pediu-me que o ajudasse, que falasse com ele.

– Quando cá vem é tão corajoso! Tão terno. Diz-me: Mãezinha, mais um pouco de coragem! Tenta ocultar a sua tristeza, vejo-o bem. Gostaria de lhe falar, de lhe dizer que vou partir, mas que cá estarei sempre para o proteger. Mas não consigo dizer-lho, não consigo! Prometi a Maria transmitir ao filho o que me acabava de dizer, podia confiar em mim. Senti que lhe fazia algum bem. Era tudo o que eu podia. Maria morreu esta noite.”

Daniéle: “Esse <<Não é assim tão grave!>>, dito por uma jovem á beira da morte, ecoa longamente em mim, faz parte das pérolas de sabedoria que recolho de tempos a tempos e que me dão a sensação de enriquecer.”

Jean: “Pouco antes de morrer, Jean mandou chamar o “amigo”. Pediu-lhe para lhe pegar nas mãos e dançar com ele. Queria continuar a ser o bailarino que era, até ao fim. Tinha-se soerguido na cama e, com toda a força da alma, fazia dançar os braços, ajudado pelo “amigo”, que chorava todas as lágrimas que tinha no corpo, de tal modo aquilo era comovente. <<Dança, dança>>, repetia-lhe o “amigo”, enquanto os seus braços unidos se embalavam de um lado para o outro. Depois, Jean sorriu, um sorriso magnífico, sublime, antes de se abater sobre a almofada. Acabara de expirar, dançando.”

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