O facto de nenhum livro ou autor possuir, em si e por inteiro, a “Sabedoria” plena, não impede que cada autor partilhe um pouco da sua sabedoria num livro. E ainda para mais, com o valor intelectual do historiador José Mattoso, especialista sobretudo na período histórico conhecido por Idade Média. Nesta publicação, o autor reúne uma série de artigos e conferências que ele próprio descreve do seguinte modo: «Os textos aqui reunidos foram escritos ao sabor de solicitações variadas, a que tentei responder na medida das minhas possibilidades e segundo as minhas convicções pessoais. Uns são mais ‘cívicos’, outros mais espirituais; uns inspirados no senso comum, outros na mensagem evangélica; uns recorrem à História, outros a princípios intemporais. Qualquer que seja a linguagem e o pensamento que os inspira, pretendem todos contribuir em alguma coisa para ‘levantar o Céu’. São também um convite a procurar nesse ‘exercício’ o alimento da esperança necessário para recusar a fatalidade de um ‘fim anunciado’ (…) Não sendo textos históricos, servem para sugerir o que está por detrás deles, isto, é, uma conceção de vida que dá a primazia à espiritualidade cristã vivificada pela espiritualidade oriental.» (pág. 16)
Um historiador será sem dúvida uma pessoa com uma preparação especial para ler o presente da realidade: um fim/transição de milénio marcado por uma crise económico-social grave, mas também uma transição de modelos de pensar e de viver – o autor pertence, ou pelo menos passou, por uma geração que viveu o Maio de 68 e o 25 de Abril com tudo o significou de utopias e sonhos de uma realidade melhor que, hoje, parecem perdidos. Como o poderá interpretar? Ainda haverá esperança? «Creio que o mais necessário é não cair num fatalismo paralisante. Não se pode deixar de lutar contra o caos social. Nesse sentido não podemos obcecar-nos com a globalização ao ponto de julgar que a dimensão dos problemas torna a sua resolução impossível. Desde que os problemas essenciais se possam solucionar, ainda que imperfeitamente e a uma escala reduzida – aquela que está ao nosso alcance – nem tudo está perdido. As dificuldades do momento presente podem suscitar reações salutares e estimular a imaginação. Aquilo que não podemos resolver sozinhos pode talvez resolver-se com a cooperação de mais alguns. A catástrofe pode estimular a descoberta de energias latentes. Merece sempre a pena cultivar a solidariedade, o apoio mútuo, o sentido coletivo. É preciso continuar a acreditar em ideais, tentar construir ideologias novas capazes de responder às novas condições de vida, melhor adaptadas à realidade e suscetíveis de fundamentar uma prática eficaz. As utopias não nos ajudam em nada porque negam a realidade, em vez de a construírem. O sonho, porém, continua a ser necessário enquanto convite a inventar soluções novas para problemas novos e antigos.» (pág. 73)
Da necessidade de novos sonhos e projectos que alimentem a nossa esperança, podemos passar para o campo do diálogo inter-religioso: e aqui o historiador ensina-nos como a história da Península Ibérica, por exemplo, foi sempre marcado pelo encontro de religiões e culturas, e que esse encontro, embora marcada por períodos de perseguição, foi um encontro predominantemente de tolerância e cooperação. São Tomás conheceu Aristóteles sobretudo através dos filósofos islâmicos; ainda hoje o português e o castelhano detêm termos de origem árabe, transmitidos pela presença de comunidades islâmicas na Península que foram toleradas assim como as comunidades cristãs foram toleradas durante o domínio islâmico. A fé em Deus corresponde à tolerância: «A adoração não pode dirigir-se a nenhum ser criado, a nenhuma ideologia, a nenhuma moral absoluta, a nenhum valor humano, mas só ao Deus único e verdadeiro, ao Senhor do Céu e da Terra, a Iavé, ao Ser Absoluto, Àquele que verdadeiramente É. Só Ele, o Único, o Simples, o Santo, nos pode ensinar a separar o trigo do joio, a distinguir a idolatria da santidade, a separar o bem do mal, a praticar a misericórdia sem ameaçar a justiça. Só Ele conhece os limites da Humanidade, só Ele sabe escrever por linhas tortas, só Ele é capaz de sondar os corações, só Ele sabe perdoar, só com Ele se aprende a praticar a misericórdia. Assim, resta-nos cultivar a simpatia e o respeito para com tudo o que, no comportamento religioso, parece ser sincero e autêntico, mesmo quando é também estranho.» (pág. 151)
E como poderemos entender, hoje, a noção de «intercessão», tão própria da vida monástica da qual o autor também partilhou durante um período da sua vida? Procurando superar a noção simplicista de que interceder é «meter uma cunha», o autor percorre nada menos do que a história que esta noção teve na vida da Igreja e sobretudo na vida monástica. De certo, o papel que na Idade Média as Ordens e Congregações Monásticas desempenharam na organização da vida de populações inteiras ligaram uma vocação contemplativa a uma vocação de “intercessão” – os monges, tal como ensinavam a ler ou a trabalhar a terra, ou a interceder junto de reis e senhores feudais, assim também intercederiam junto de Deus, sobretudo pelos irmãos defuntos. Mas o autor apresenta o exemplo de Etty Hillesum para unir contemplação, intercessão e solidariedade:
«Para o contemplativo, a aceitação plena e voluntária dos sofrimentos da Humanidade é apenas espiritual; mas o exemplo de Etty mostra bem que não pode ser meramente imaginária. Não pode ter limites. Deve ir até ao fim. No fundo, porém, Etty não faz mais do que trilhar o caminho da partilha da condição dos pobres, oprimidos, humilhados e perseguidos, por meio da qual Jesus Cristo se identifica com toda a Humanidade, que eles representam melhor que todos os outros homens. Aceita-o até à paixão e morte. A sua entrega reproduz-se até ao fim dos tempos por meio da entrega de si mesmos aos que o seguem e assim recebem o penhor da vida. Note-se, porém, que a noção de soliedariedade implica normalmente a ideia de um limite que coincide com o âmbito do grupo. Em termos antropológicos, envolve os seus membros, mas exclui os inimigos. Jesus Cristo reforça o princípio básico do sacrifício dos interesses pessoais à coesão da comunidade, mas tem dela uma noção surpreendente porque estende o seu âmbito a todos os homens. Não exclui ninguém, nem mesmo os estrangeiros, nem os inimigos, nem os que nos ameaçam ou exploram, nem os que contra nós praticam a injustiça. Também neste ponto Jesus Cristo nos convida a rever as noções da antropologia religiosa e a não nos contentarmos com soluções redutoras.» (pág. 188)
Nenhum livro tem para nós as respostas para todas as perguntas – mas pode ajudar. Ajudar a encontrar novas respostas, a encontrar novas perguntas, ou a purificar, criticar e aprofundar as respostas e perguntas que já temos. E o testemunho de um homem e historiador com 80 anos de vida e experiência, pode ser uma boa ajuda. Porque não é fácil aliar uma experiência de fé, ou espiritual, um conhecimento intelectual, e uma capacidade de leitura da vida e da realidade. As respostas que daí surgirem merecem, pelo menos, ser ouvidas.
(Para conhecer melhor o autor e a obra, temos estes dois artigos, ambos do Jornal Público: http://religionline.blogspot.pt/2012/04/bento-domingues-levantar-o-ceu.html; http://www.publico.pt/Pol%C3%ADtica/jose-mattoso-o-governo-do-povo-favorece-quem-ja-tem-o-poder-1544054)
José Mattoso, «Levantar o Céu: os Labirintos da Sabedoria», ed. Temas e Debates, Lisboa 2012, 290 págs.
Susbscribe to our awesome Blog Feed or Comments Feed