Fundamentos

Enquanto se diz, cria espaço

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«O Filho faz-se estilo de vida, filial e fraterno, grato e dedicado, próximo e desprendido, que podemos apreciar e perscrutar a partir da vida concreta que recebemos e que realizamos, da biografia que já escrevemos, dos sonhos que ainda alimentamos. Nos dias da sua vida entre nós, toca quando é tocado, repara quando é observado, escuta quando é escutado, interroga quando é interrogado. Dá-se quando é oferecido.

E, assim, se diz, enquanto cria espaço, não imediatamente para o que se sabe sobre Deus ou sobre a lei, nem para o que se deveria ser ou para aquilo que seria bom que se fosse, mas para as marcas reais que a vida assinala na carne e na alma biográficas daqueles que encontra – a lepra, a cegueira, o adultério, a prostituição, a rejeição, a pequena estatura, a paralisia, o luto. É assim com a samaritana no poço e com Zaqueu na árvore. E com a mulher pecadora, em casa de Simão. E com o homem rico, tão observante. E com a mulher adúltera, na praça, e os homens que sustentam as pedras para lhe atirar.

O seu modo de proceder força a conversão do modo real de olhar e de se olhar, de interpretar e de se interpretar, até que novas palavras e outros gestos desenhem e realizem o estilo de um corpo vivo, cheio de graça, como verdadeiro modo de vida que tenha a força e a forma de uma vida justa.»

José Frazão Correia, ‘Entretanto’, Lisboa 2014. Na imagem: ‘Jesus e a mulher adúltera’, de M. Rupnik, na Igreja de Todos os Santos em Lubliana, Eslovénia.

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