É sempre bom e agradável termos alguém que nos apresenta o quão “humanos” são os textos bíblicos: no sentido em que a Revelação do Rosto e do Projecto de Deus na história bíblica se dá através das histórias, experiências, dramas e realidades do ser humano. Deste modo, a Bíblia é também um espelho do ser humano.
É o que Gianfranco Ravasi nos apresenta com este livro, «O que é o Homem? Sentimentos e Laços Humanos na Bíblia». A obra divide-se em duas partes, como o explica o autor: «Propomos um duplo itinerário: antes de mais, um olhar sintético e refletido sobre ‘o microcosmos do sentir’, o variado e recôndito afresco dos afetos e das emoções, do coração e dos seus movimentos mais íntimos e profundos; a seguir, uma panorâmica mais alargada sobre ‘o universo dos vínculos’, que reúne e exprime o retorno cultural e social daquele sentir. Depois de uma clarificação sobre o conceito bíblico de ‘coração’, na primeira secção, apresentaremos uma reflexão sobre algumas experiências contrastantes do sentir – a mansidão, o medo, a alegria da festa e o mistério obscuro do sofrimento – que também se tornam atitudes e disposições de vida. Dedicaremos a segunda parte ao aprofundamento de alguns dos rostos do amor ‘público’, isto é, do amor que transborda do privado e do pessoal, e se traduz em atitudes de entrega ao outro (desde a amizade ao amor nupcial), até produzir frutos que permanecem e alimentam relações, vínculos, estruturas afetivas e espaços de socialidade. Neste último sentido, reservar-se-á uma atenção especial à família e, no seio dela, à figura do idoso, tão frequentemente esquecida.» (pág. 13)
Não se trata de um manual de antropologia, um manual no sentido de respostas feitas e regras práticas. Neste ponto, o autor partilha o que de mais rico pode partilhar: faz um percurso, quase um ‘passeio’ demorado, como bom conhecedor, dos textos bíblicos, mostrando como as relações, as experiências, o ser-se humano se revela nestes textos. Desde o sentido do termo ‘coração’ na Bíblia – «ter uma religião do coração não significa entrar numa espiritualidade sentimental e efervescente, mas, sobretudo, pensar, decidir e operar, segundo a verdade e a justiça», pág. 22 – passando pela mansidão, o medo e a alegria da festa, até chegar ao sofrimento. Aqui, observa o autor:
«É curioso observar que, no Evangelho de Marcos, 31 por cento do texto (209 versículos em 666) corresponde a relatos de milagres e, se nos ativermos ao ministério público de Jesus (os primeiros dez capítulos do Evangelho), a percentagem sobe para 47 por cento (209 versículos em 425). As mãos de Cristo pousaram-se sistematicamente em carnes doentes e em sofrimento.» (pág. 71). Num contexto cultural da Grécia do séc. I d. C., em que a perfeita forma física e corporal/estética era sinal de perfeição e manifestavam as próprias divindades – onde já vimos isto? – Paulo proclama o escândalo de um Messias Crucificado, revelando um Deus que, ainda que seja ousado falar de ‘sofredor’, pelo menos é um Deus em cujo seio está a libertação do sofrimento, a sua humanização, através da solidariedade e da compaixão – é ai que está a perfeição.
E também na Bíblia encontramos «Rostos de Amor» – desde o Amor Famíliar (em que a Bíblia também conhece as marcas de rupturas e de dramas, como a ‘discussão conjugal’ entre Adam e Eva até ao fraticídio de Abel por Caím), à Amizade, ao Casal Humano, para concluir num capítulo com o curioso título de «Os Cabelos Brancos, Coroa de Glória», inspirando-se em Provérbios 16,31. Eis um excerto significativo:
«A polémica de Cristo contra a hipocrisia e a intolerância deve chamar o ancião a uma contínua e corajosa autocrítica, que o transforme no generoso pai da parábola do filho pródigo (Lc 15), infinitamente maior e mais aberto do que o jovem e egoísta filho mais velho. Ou o torne paciente e compreensivo como o ancião David nos confrontos com Absalão, o seu jovem filho, rebelde e turbulento (2Sm 18-19). Ou o associe aos inteligentes e tolerantes conselheiros anciãos de Roboão, filho de Salomão, que se opõem aos fanáticos cortesãos jovens (1 Rs 12,6-11). Além disso, o ancião deve ser mestre de vida. A bagagem adquirida na experiência do passado pode ser uma preciosa chave de leitura para o hoje. Para a Bíblia, o desaparecimento de todos os anciãos, relegados para uma espécie de cidade dos velhos, é quase uma ameaça (1Sm 2,31-32).» (pág. 130)
Para quem deseje entrar mais um pouco na riqueza que os textos bíblicos nos oferecem, tem neste livro um bom auxílio. Escrito numa linguagem muito simples, sempre atento às diversas passagens, histórias e experiências dos textos. (um excerto, sobre a amizade, pode ser lido também em http://www.snpcultura.org/amigos_do_peito_amigos_na_vida_e_na_morte.html)
Gianfranco Ravasi (1942) é um conhecido biblista italiano, especializado na lingua hebraica. Ordenado arcebispo em 2007 e desde 2010 cardeal, é presidente do Conselho Pontifício da Cultural.
G. Ravasi, «O que é o Homem? Sentimentos e Laços Humanos na Bíblia», ed. Paulinas, Prior Velho 2012, 143 págs.
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