Fundamentos

XXIV Jornadas de Teologia em Braga

8 de Maio: «Cuidar do Pobre na Sociedade Contemporânea», d. Manuel Linda

«As alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens do nosso tempo, sobretudo dos pobres, e de todos os que estão em sofrimento, são também as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos discípulos de Cristo, e nada existe de verdadeiramente humano que não encontre eco no seu coração» (GS 1).  Poderia ser, talvez, esta a proclamação essencial que acompanhou toda a exposição do bispo Manuel Linda, ontem nas Jornadas de Teologia de Braga.

Porque falar de pobreza, tomar consciência deste drama de tantas pessoas é – tem de ser – o primeiro passo para a acção. E a Igreja dispõe, como o expôs Manuel Linda ao longo de toda a sua conferência, da melhor Boa-Nova, do melhor Espírito para lutar contra este drama. «Porque pode ser utópico – referiu Manuel Linda, talvez não exactamente com estas palavras – pode ser utópico mas temos de lutar por isto: pobreza zero. Não podemos explicar, justificar ou romancear a pobreza. Nem espiritualizar – a ONU definiu, e já antes João XXIII o tinha feito, sete critérios: a saúde, o bem-estar, a alimentação, o vestuário, a habitação, a educação e o trabalho digno.» Espiritualizar a mensagem bíblica e evangélica – de um «Deus aliado do pobre» é a observação que fez Charles Maurras, segundo o próprio, «sem ironia»: «a Igreja prestou um grande serviço em proclamar o Magnificat em latim e gregoriano – retirou a força às palavras ‘Derrubou os poderosos de seus tronos e exaltou os humildes; aos famintos encheu de bens e aos ricos despediu de mãos vazias.»

E qual poderá ser a resposta da Igreja a uma crise que, como bem observou d. Manuel Linda, «começou no centro financeiro do sistema económico capitalista – as seguradoras e companhias de rating – mas quem está a ser vencida é a dimensão social da economia: a acção social do Estado e a vida das populações» (de novo, não exactamente com estas palavras – esperemos que a conferência seja publicada em breve pela revista Cenáculo!).  A Igreja não dispõe de um regime económico alternativo ao regime capitalista. Mas deverá aprender com a Igreja do Novo Testamento, cujo lugar da verdadeira Caridade era essencial, desde o ministério dos Diáconos à Partilha de Bens. Trata-se de elevar a pessoa em situação de pobreza, não pelas suas virtudes – isto seria romancear de novo a pobreza, profundamente desumana e desumanizada – em todas as dimensões da vida económica e social.

Propostas concretas? Foram apresentadas, não como conhecimento económico técnico, mas com o olhar da fé que procura, à luz dos critérios do Evangelho, procurar respostas em diálogo com a sociedade. A inclusão social dos marginalizados é o mais urgente, mas não chega: são necessários processos de reforma social e re-equação das políticas sociais. E aqui os Estados têm de exercer a sua função de mediadores da vida económica. Por exemplo, através de medidas excepcionais para uma altura excepcional, como por exemplo a obrigatoriedade de os bancos aceitarem renegociar dívidas de famílias em situação de fragilidade económica, a correcção dos mecanismo de transacções económicas e facturações, o combate às falsas falências e migrações de capital, a moderação das reformas mais avultadas, o abaixamento dos preços da energia, etc…

Uma exposição bastante clara e prática, que permitiu verificar como a Igreja pode ter uma palavra a dizer à luz dos critérios do Evangelho – e que, infelizmente, faz falta «dizer à luz do dia e proclamar sobre os telhados» (Mt 10,27). Naturalmente, ficam as perguntas: será possível «humanizar o capitalismo»? Talvez esse esforço se assemelhe a tentar conduzir Pilatos à verdade (Jo 18,38). E as respostas político-económicas, bastarão a nível nacional, ou será necessária uma tomada de posição ao nível das Nações Unidas? Mas sobretudo, ficam as perguntas para a vida pessoal e comunitária dos crentes, por que é neste caminho que se dá o seguimento do Senhor (Mt 25,31-46).

9 de Maio: «Relação Pastoral de Cuidado com os Doentes», José Carlos Bermejo

José Carlos Bermejo é religioso camiliano e fundador do Centro de Humanização da Saúde de Três Cantos, Madrid. Especialista em bioética e cuidados de saúde, a sua presença nas Jornadas de Teologia de Braga foi um contributo muito útil numa área na qual a Igreja está tão presente e tem um testemunho tão importante a desempenhar.

Toda a comunicação foi dedicada ao repto lançado por Camilo de Lelis, religioso italiano do século XVI e fundador da Ordem dos Camilianos, «Mais Coração nas Mãos». Trata-se de adquirir competências relacionais, pastorais, técnicas e culturais no cuidados com a pessoa doente, superando a mera boa-vontade e o voluntarismo. E aqui entram todos os que estão envolvidos nesta área, desde médicos, enfermeiros, voluntários, psicólogos, etc. Na expressão utilizada por José Bermejo, trata-se de «saber, saber ser, e saber fazer», conjugando conhecimentos intelectuais, motivações e técnicas de acção.

Aqui é fundamental desaprender alguns estilos infelizmente muito comuns na relação com a pessoa doente: desde a utilização excessiva dos «imperativos moralizantes» («não há razão para desanimar tanto!»), as tentativas de consolo ou interpretação superficiais (e aqui Bermejo recordou-nos o livro de Job), até à procura de soluções imediatas ou de «interrogatórios» à pessoa doente que, em vez de a deixar des-abafar, a abafam.

E qual o papel do cristão nesta área? «Não é necessário falar de Deus à pessoa doente; é necessário, sim, reconhecer o Deus-Sofredor nessa pessoa, e descobrir-se enviado pela comunidade cristã para junto dela», afirma Bermejo, não exactamente com estas palavras. A Empatia Terapêutica pode ser lida, à luz da fé, como um processo de Encarnação, como um processo que Bermejo identifica em algumas fases: o identificar-se com a pessoa que está doente (fazer um esforço para se colocar no lugar de uma mulher jovem acabada de sofrer uma mastectomia pode anular muitos comportamentos errados), transmitir compreensão pelo sofrimento que está a viver no sentido de o deixar repercutir-se (é impossível ficar neutro, segundo Bermejo), e por fim o separar-se de junto da pessoa doente, afim de poder ser um melhor auxílio.

De maneira muito breve, estes foram alguns dos elementos que ontem nas Jornadas de Teologia quem participou pôde receber. Bermejo é autor de numerosas obras, entre as quais «A Relação de Ajuda no Encontro com os Idosos», publicado em 2010 pelas Paulinas Editora. Para conhecer um pouco melhor o seu trabalho, nada como visitar o seu site: http://www.josecarlosbermejo.es/.

10 de Maio: «O ciclo do cuidado ao idoso», António Fonseca

Por fim, depois da pessoa do pobre e do doente, a pessoa do idoso como grupos que sofrem, talvez mais ainda, a fragilidade nesta situação de crise económica e social. Para ajudar a compreender melhor a velhice como dado psicológico e social, o professor António Fonseca, da UCP-Porto, psicólogo e professor.

O essencial da comunicação centrou-se neste dado: não existe um grupo homogéneo de pessoas idosas, cada pessoa é única e diferente; ou seja, não podem existir respostas iguais para pessoas diferentes – respostas ao nível de cuidados de saúde, por exemplo. Estima-se que em Portugal, 2 milhões de pessoas tenham mais de 65 anos de idade – e 1 em cada 4 pessoas tem 60 anos ou mais. Torna-se necessário um “alargamento do olhar”, porque envelhecer não é uma excepção em Portugal. Aliás, apesar das limitações que as estatísticas possam apresentar, hoje uma pessoa com 65 anos tem, em média, uma esperança de vida de mais 18 anos – não se trata de um grupo etário grande, mas de grandes períodos de envelhecimento. Sendo uma bênção, não deixa de levantar desafios. O grupo etário com maior crescimento em Portugal é precisamente o grupo das pessoas com mais de 80 anos.

Para cada pessoa tem de existir uma resposta adequada: não é possível pensar, por exemplo, na hipótese de um internamento num lar de idosos para uma pessoa que possua robustez a nível de saúde (ou seja, não sofra de uma doença crónica), tenha 65 anos ou 80 anos. Existe um grande número de pessoas com mais de 65 anos em plena autonomia e activez – para estas pessoas torna-se necessário continuar a encontrar um lugar e um papel activos na sociedade. Ja por exemplo em relação às pessoas que sofrem de doenças crónicas ou múltiplas doenças, o desafio poderá passar, não apenas pela esperança de vida – o prolongamento do número de anos de vida – mas mais pela sua qualidade de vida.  O grande desafio para a nossa sociedade será o de acompanhar o aumento da esperança de vida com o proporcional crescimento da qualidade de vida para estes mesmos anos – não apenas que uma pessoa viva mais, mas que viva com mais qualidade. Aqui entram todos os serviços indispensáveis, cada um segundo as necessidades: centros de saúde, lares de idosos, acompanhamento domiciliários e, também, unidades de cuidados continuados e paliativos.

Um desafio mesmo em termos eclesiais: não apenas o melhor conhecimento da realidade – afinal, apenas 6 a 7% da população com mais de 65 anos vive em lares de idosos – como também uma procura de soluções e respostas mais adaptados a cada pessoa – e sempre, na medida do possível, com o maior respeito pela liberdade e autonomia da própria pessoa. E que cada comunidade se torne, também, fonte de respostas para estes desafios.

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