Fundamentos

Testemunhos: Teresa de Lisieux

“Ah! que Jesus me perdoe, se O desgostei. Mas Ele sabe bem que, embora não tendo o gozo da Fé, procuro, pelo menos, realizar as obras dela”.

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Marie Françoise Thérèse Martin nasceu a 2 de Janeiro de 1873 na cidade francesa de Alençon, sendo a mais nova de quatro irmãs. Aos quatro anos morre a sua mãe. Seguindo o exemplo das irmãs, aos 15 anos torna-se monja carmelita em Lisieux, norte de França. Aos 24 anos morre, no mesmo convento.

O que levou a Igreja, praticamente logo nos anos seguintes, a reconhecer a santidade de uma carmelita que viveu tão poucos anos, que desejava ter sido missionária no Extremo Oriente, que nunca chegou a ter uma formação teológica e que mal conseguia ter acesso às Escrituras (ela própria se queixava desse facto)? A tal ponto que João Paulo II a proclamou, em 1997, Doutora da Igreja.

Apesar de breves, os seus anos de vida foram marcados por uma procura espiritual muito intensa, e por intuições magníficas que podemos encontrar nos seus escritos, compostos de cartas, poesias (para os momentos litúrgicos da comunidade) e por três manuscritos endereçados a madres da comunidade que constituem a sua autobiografia (publicada posteriormente com o título de “História de uma Alma”).

Apesar de ser normalmente associada a uma visão do cristianismo próprio do contexto francês do século XIX (integrismo eclesial, uma moral rígida, combate ao modernismo, etc), os escritos de Teresa de Lisieux são considerados por muitos autores como uma verdadeira passagem do Cristianismo para o século XX. No seu livro “Paciência com Deus” (Lisboa 2013), Tomás Halík dedicou um capítulo  ao momento mais difícil vivido por Teresa ao longo da sua vida: as tremendas dúvidas de fé, quase até uma ausência de fé, que a levam a colocar-se lado-a-lado com um ateu e a chamá-lo de irmão (e não de inimigo), fase que durou os últimos dois anos da sua vida.

Assim, Halík refere como Teresa viveu, no pequeno mundo possível do seu convento, uma situação de fronteira da Fé: perante um contexto no qual no Cristianismo se destacavam as certezas, as defesas, e os argumentos a favor da doutrina eclesial, Teresa experimenta na sua vida as dúvidas, as incertezas e as procuras. É através destes processos que, segundo Halík, se poderá passar das certezas das nossas próprias projecções sobre Deus, para a abertura ao Mistério que nos ultrapassa. É um “Pequeno Caminho”, como o descreve Teresa.

(…)

“Nos dias tão alegres do tempo pascal, Jesus fez-me compreender que há verdadeiramente almas que não têm fé, almas que, por abuso das graças perdem esse precioso tesouro, fonte das únicas alegrias puras e verdadeiras. Permitiu que a minha alma fosse invadida pelas mais espessas trevas e que o pensamento do Céu, tão deleitoso para mim, não fosse senão motivo de combate e de angústia… Este tormento não devia durar alguns dias, algumas semanas; devia apenas acabar na hora marcada por Deus…, e essa hora ainda não chegou… Gostaria de ser capaz de exprimir o que sinto, mas, pobre de mim! penso ser impossível. É preciso ter viajado através deste sombrio túnel para lhe compreender a obscuridade. (…)

Senhor, a vossa filha compreendeu a vossa divina Luz. Pede-vos perdão para os seus irmãos e aceita comer por quanto tempo quiserdes o pão da dor, e de maneira nenhuma se quer levantar desta mesa cheia de amargura, à qual comem os pobres pecadores, antes do dia que vós destinastes… Acaso não poderá dizer-vos em nome dela e em nome dos seus irmãos: Tende piedade de nós, Senhor, porque somos pecadores!… Oh! Senhor, despedi-nos justificados! Que todos aqueles que não foram iluminados pelo resplandecente facho da fé, o vejam finalmente brilhar. Ó Jesus, se é preciso que a mesa manchada por eles seja purificada por uma alma que Vos ama, quero aí comer sozinha o pão da provação, até que vos agrade introduzir-me no vosso reino luminoso. A única graça que vos peço, é a de nunca Vos ofender! (…)

De repente, os nevoeiros que me rodeiam tornam-se mais densos, penetram-me na alma, e envolvem-na de tal maneira, que já não é possível encontrar nela a imagem tão aprazível da minha pátria. Tudo desapareceu! Quando quero repousar o meu coração fatigado das trevas que o envolvem, com a lembrança do país luminoso, pelo qual aspiro, o meu tormento redobra. Parece-me que as trevas, servindo-se da voz dos pecadores, me dizem, fazendo troça de mim: – “Sonhas com a luz, com uma pátria inundada dos mais suaves perfumes…, sonhas com a posse eterna do Criador de todas estas maravilhas…, pensas sair um dia dos nevoeiros que te rodeiam… Continua! Continua! Alegra-te com a morte, que te dará, não o que tu esperas, mas uma noite mais profunda ainda, a noite do nada” (…)

Ah! que Jesus me perdoe, se O desgostei. Mas Ele sabe bem que, embora não tendo o gozo da Fé, procuro, pelo menos, realizar as obras dela. Creio ter feito mais actos de fé de há um ano para cá, do que durante toda a minha vida (…) Minha caríssima Madre, parece-vos talvez que exagero a angústia da minha alma. De facto, se ajuizardes a partir dos sentimentos que exprimo nas pequenas poesias que compus durante este ano, devo parecer-vos uma alma cheia de consolações, para a qual o véu da fé quase se rompeu… Porém, para mim já não é um véu: é um muro que se ergue até aos céus e cobre o firmamento estrelado… Quando canto a felicidade do Céu, a posse eterna de Deus, não sinto nenhuma alegria, porque canto simplesmente o que quero acreditar. às vezes, é verdade, um pequeníssimo raio de sol vem iluminar as minhas trevas; então a provação cessa por um instante. Mas depois, a recordação desse raio, em vez de me causar alegria, torna as minhas trevas ainda mais densas.

(Manuscrito C, dirigido a Madre Maria de Gonzaga; in “Santa Teresa do Menino Jesus, Obras Completas”, Avessadas 1996)

Meu Canto de Hoje

Este poema tem por tema a hora passageira de uma vida,
A hora que me toca e foge _ Uma vida, pois _
Mas tu sabes, meu Amigo _ Para te amar
Não tenho outra, apenas esta _ instante, e sem depois.

Oh|, eu amo-te, Jesus! É para ti que minh’alma voa,
Só por hoje, peço-te, sê meu galho. Vem tomar
Meu coração. Ouves-me? Dá-me o teu sorriso, dá
Apenas hoje, e sem depois.

Que me importa, Amigo, se o futuro é sombra?
Pedir para depois, oh!, não, é impossível.
Guarda-me o coração claro, cobre-o
Com a tua mão, e apenas hoje.

Se penso em depois, sei-me inconstante _ Temo _
No coração sinto nascer tristeza e tédio.
Não quero sofrer? Perguntas-me. Por ti sim,
Apenas hoje. Sem prometer.

Em breve, ver-te-ei nas margens da eternidade _
Diz-me o Amigo que me toma pela mão.
Nas vagas alterosas guia o meu desequilíbrio.
Apenas então. Sim?

Oh! Deixa que me esconda no teu rosto Jesus
Onde o murmúrio vão do mundo não me aflija.
Dá-me o teu amor. Guarda-me no teu fulgor
Apenas hoje, e sem medida.

1 de Junho de 1894

(traduzido para português por Maria Gabriela Llansol, in “O Alto Voo da Cotovia”, Lisboa 1999

Ver mais: Obras de Teresa de Lisieux

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