Fundamentos

Dag Hammarskjöld, Marcas no Caminho

Dag Hammarskjöld, sueco, foi o 2º secretário geral da ONU, de 1953 a 1961. Nada o traria à Fundamentos, se não fosse o seu pequeno Diário, publicado com o título «Marcas no Caminho».

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O nome é difícil de pronunciar. Dag Hammarskjöld, sueco, foi o 2º secretário geral da ONU, entre 1953 e 1961. A sua carreira diplomática foi tragicamente interrompida a 18 de Setembro de 1961, quando encontrou a morte num acidente de avião na Zâmbia, enquanto exercia uma missão de mediação de paz para o conflito no Congo. O seu corpo só seria reconhecido através de um livro, assinado com o seu nome, encontrado num dos bolsos do casaco. O livro era a “Imitação de Cristo”, um clássico de espiritualidade do século XV.

Apesar de reconhecer por diversas vezes a inspiração que retirava para o exercício da sua função de místicos como Meister Eckhart e Jan van Ruysbroek, não era conhecida (pelo menos, publicamente) qualquer prática religiosa a Dag Hammarskjöld. Mas, após a sua morte, seria encontrado no seu apartamento um manuscrito, com o título «Marcas no Caminho», acompanhado de uma carta sem data dirigida a Leif Belfrage, secretário geral do Ministério dos Assuntos Exteriores sueco. Na carta estava escrito o seguinte:

«Meu caro Leif:
Talvez te recordes de um dia te ter contado que levava, apesar de tudo, algo como um diário do qual queria deixar a teu cargo. Aqui está.
Comecei-o sem pensar que alguém um dia o chegaria a ler. Mas, depois de tudo o que aconteceu, depois de tudo o que foi dito e escrito sobre mim, a situação mudou. Estas notas traçam o meu único “perfil” verídico. E esta é a razão pela qual durante estes últimos anos comecei a considerar a sua publicação, ainda que continuando a escrevê-lo para mim e não para um público.
Se consideras que estas notas são dignas de publicação, autorizo-te a que as publiques como “livro branco” dos meus tratos comigo mesmo – e com Deus.»

Assim, no período de 1925 a 1961 (mais precisamente a 24 de Agosto de 1961), Dag Hammarskjöld partilhou pensamentos pessoais e espirituais, orações, poemas e hinos, leituras de Pascal, S. João da Cruz ou T. S. Eliot, exames de consciência sobre as motivações que o conduziam na vida pública e diplomática, etc. O que nos fica é um belíssimo testemunho de vida, concentrado num livro que, na edição castelhana (infelizmente não se encontra disponível em Portugal – e, do que sei, nunca chegou a ser publicado por cá), não tem mais de 160 páginas em formato de livro de bolso. E este será o único livro publicado de Dag Hammarskjöld.

Deixo alguns excertos, mais ou menos bem traduzidos do castelhano. Dag Hammarskjöld era candidato ao Prémio Nobel da Paz em 1961; recebeu-o nesse ano, a título póstumo.

Páscoa de Pentecostes (1961)

«Não sei quem – ou o quê – me colocou a pergunta. Não sei quando foi colocada. Não me lembro de a ter respondido. Mas uma vez respondi sim a alguém – ou a algo. Daquele momento provém a minha certeza de que a existência tem um sentido e que, portanto, a minha vida tem um objectivo ao ser submetida. Desde aquele momento, percebi o que significa “não olhar para trás” ou “não preocupar-se com o dia de amanhã”.

Guiado através do labirinto da vida pelo fio de Ariadna desta resposta, cheguei ao momento e ao lugar em que percebi que o caminho conduz a um triunfo que é uma derrota, e a uma derrota que é um triunfo, e que o preço das obras de uma vida é a chacota, e que o abismo do aviltamento é a única elevação possível para o ser humano. A partir daí, a palavra valor perdeu todo o seu sentido, pois não me poderiam despojar de nada.

Neste caminho aprendi, passo a passo, palavra por palavra, que há um homem por detrás de cada frase pronunciada pelo herói dos evangelhos, por detrás da sua oração a pedir que o cálice lhe seja afastado, e por detrás da sua promessa de o beber. E também há um homem em cada uma das suas palavras na cruz.»

19 de Julho de 1961

«Tem piedade
de nós.
Tem piedade
do nosso esforço
para que, diante de ti,
com amor e fé,
justiça e humildade,
te sigamos,
disciplinados, fiéis e valorosos,
e te encontremos
No silêncio.

Dá-nos
um espírito puro
para te vermos,
um espírito humilde
para te ouvir,
um espírito de amor
para te servir,
um espírito de fé
para viver em ti.

Tu,
a quem não conheço
mas a quem pertenço.

Tu,
a quem não compreendo
mas que me consagraste
ao meu destino.
Tu – »

2 Comments

  1. Nico Brodnitz
    Setembro 20, 2015

    Dag Hammarskjöld: o maior Secretario da ONU que já tivemos!

  2. […] com Dag Hammarskjöld e o seu livro «Marcas no Caminho», deixando mais alguns poemas e breves reflexões de um livro […]

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