Fundamentos

De novo com Dag Hammarskjöld

Continuamos com Dag Hammarskjöld e o seu livro «Marcas no Caminho», deixando mais alguns poemas e breves reflexões de um livro marcante.

dag

Sorridente, franco, incorruptível –
dominado e livre o corpo.
Um homem que chegou a ser o que podia ser
e foi o que era –
sempre disposto a tudo levar
para um simples sacrifício.

Amanhã nos enfrentaremos,
a morte e eu.
Deitará a sua gadanha
num homem prevenido.

Mas como me queima a memória de cada instante malgasto!

(…)

Algo me empurra para a frente,
para uma região desconhecida.
A terra torna-se mais dura,
o ar mais cortante, mais frio.
Empurradas pelo vento
que vem da minha meta desconhecida
vibram as cordas
na espera.

Interrogado sempre,
chegarei até
onde se apaga a vida:
com uma clara e simples nota
no meio do silêncio.

(…)

A maior viagem
é a viagem para o interior.
Quem elegeu o seu destino
e empreendeu o caminho até ao seu próprio fundo
(há um fundo?)
permanece ainda entre vós
ainda que fora da comunidade,
isolado dos vossos sentimentos
como o condenado à morte
ou como aquele a quem a despedida iminente
empurra prematuramente
à irremediável solidão
do homem.

Entre vós e ele há uma distância,
uma dúvida –
uma preocupação.

Ele vos verá
cada vez mais longe,
ouvirá a chamada das vossas vozes
cada vez mais debilmente.

(…)

«Faça-se a tua vontade». Que por interesse tenhas intentado dar pequenos impulsos ao destino, seja; que tenhas querido gravá-lo no espírito de outros, nos mais nobres termos, seja também. Deixa somente que as consequências se decidam totalmente por cima das nossas cabeças, na fé.
«Faça-se a tua vontade». Permitir que o interior prime sobre o exterior, a alma sobre o mundo – qualquer que seja o resultado. E não permitir que um valor interior se converta na máscara de outro exterior, sem se tornar cego, não obstante, para o valor que algo interior possa conferir a algo exterior.

(…)

«A fé é a união de Deus com a alma» (S. João da Cruz). A fé é – e por isso não pode compreender-se, e muito menos identificar-se com as fórmulas nas quais transcrevemos o que é. «Numa noite escura». A noite da fé, tão obscura que nem sequer podemos procurar nela a fé. Durante a noite de Getsemaní, quando os últimos amigos dormem, quando todos os demais buscam a tua queda e Deus se cala, consuma-se a união.

(…)

Tu que estás por cima de nós,
Tu que és um de nós,
Tu que és –
também em nós,
faz com que todos te vejam – também em mim,
que eu te prepare o caminho,
que te agradeça tudo o que aí me acontecer.
Que, com isso, não esqueça a miséria alheia.
Guarda-me no teu amor
tal como queres que o próximo esteja no meu.
Que tudo o que forma parte do meu ser se entregue à tua glória
e que nunca desespere.
Pois estou nas tuas mãos,
E em ti residem toda a força e vontade.

Concede-me um coração puro – para ver-te,
um espírito humilde – para escutar-te,
um espírito de amor – para servir-te,
um espírito de fé – para permanecer em ti.

Deixe um comentário

@wpshower

Feeds

Susbscribe to our awesome Blog Feed or Comments Feed