Fundamentos

Em Marcha! um Feliz 2013

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«Não vos preocupeis, portanto, com o dia de amanhã, pois o dia de amanhã já terá as suas preocupações. Basta a cada dia o seu problema.» Comecei o dia com estas palavras na cabeça…

Não me importo significativamente que alguém me diga que não acredita que Jesus seja o Filho de Deus, um Messias-Ungido, ou que seja o Ressuscitado: tratam-se, na verdade, de experiências de fé, que só encontram sentido num caminho pessoal e comunitário no qual cada qual é cada qual.

Já me sinto bastante mais desconfortável que me falem de Jesus de Nazaré como alguém ingénuo, com uma vivência puramente «espiritual» (num mau sentido), que disse umas coisas muito bonitas mas sem fazer ideia do que é a vida. Que uma ou outra pessoa de Igreja com quem nos tenhamos encontrado nos tenha deixado esta sensação é uma coisa; mas, olhando para os testemunhos históricos que podemos ter sobre a vida deste homem, Jesus, é impossível ver isto. A começar pela sua morte: ninguém que não tenha vivido os dramas e circunstâncias históricas ao máximo pode morrer daquela maneira.

Ninguém «espiritual» conhece a história dos trabalhadores que estão na praça à espera de trabalho todo o dia, todos os dias (Mt 20, 1-16), nem a história do trigo e do joio que crescem juntos, infelizmente para agricultores e famílias (Mt 13,24-30), nem a história da pesca de uma noite inteira sem qualquer fruto (Lc 5,2-5). Possivelmente, certamente até, o mestre de Nazaré terá vivido na pele estas experiências; por isso pode falar com autoridade, como o testemunha a multidão (Mt 7,29).

Como pode, então, este homem falar de «não nos inquetarmos em relação à nossa vida», sobre «o que havemos de comer e de vestir», ou com a pergunta «qual de vós, por mais que se preocupe, pode acrescentar um só côvado à duração de sua vida?». Eu não sei bem, estou a tentar descobri-lo na minha vida, e ainda me falta bastante (quase tudo). Significará, por exemplo, o aproveitar ao máximo as experiências que ainda são gratuitas e não sujeitas a impostos? Tipo passar uma tarde em casa com quem amamos, ou dar um passeio nos solarengos dias de inverno, ou fazer uma visita surpresa a casa daqueles grandes amigos que não têm problemas em receber-nos com a casa desarrumada?

Não significará, também, procurar a força e a confiança para tentar superar os problemas e dificuldades, sabendo que o pessimismo e a tristeza, isso sim, deveriam pagar imposto? Não significa fazer uma «dieta» das notícias de telejornais, reduzindo o seu consumo diário, porque estas notícias apenas estimulam o vírus da descrença (muitas vezes convidando à desmobilização)? Prefiro passar esse tempo a escutar as histórias da minha avó, muitas vezes regadas com as misérias pelas quais viveu e passou, e condimentadas com a força e a coragem de quem as superou e aprendeu com elas.

Não significará perceber que há coisas, pequenas, que estão ao nosso alcance, e que as soluções não vêem (não podem vir) dos sistemas? No meio das filas de 2kms para entrar no BragaParque junto de minha casa (juro pela saúde de quem mais amo! 2kms de trânsito parado, estes domingos de tarde, antes do Natal mas também agora, no tempo de saldos), estarão muitas pessoas que provavelmente vivem uma situação económica frágil. Não faria falta, entre nós, aprendermos e ensinarmos a gerir os nossos poucos recursos e economias, apesar do que já se tem feito? (Posso dizer, e não sou o único, que nos meus 10 anos de catequese, não tive uma única hora dedicada a gerir uma nota de 500 escudos). Existem muitos hábitos de consumo que,hoje, consideramos «básicos» e «essenciais», mas há 15 anos simplesmente não existiam: como conseguiram os meus pais viver tanto tempo sem tvcabo, telemóveis de 3ª e 4ª geração ou ginásios?

Confesso que desisti de esperar algo da política ou das grandes empresas, com as suas súbitas políticas natalícias de «solidariedade» (muitos dos seus trabalhadores terão sabido no Natal que os seus contratos não seriam renovados no novo ano). Prefiro dirigir-me ao deserto e perguntar, a João Baptista, «o que havemos nós de fazer?» E ouvir as suas palavras, duras, directas, de justiça, partilha e honestidade. E dirigir-me ao descampado da Galileia e ouvir, de um mestre a quem reconheço autoridade, palavras que geram movimentos. (De facto, o poeta francês André Chouraqui traduz o tradicional «bem-aventurados» por «Avant!», «em marcha!», a partir da palavra hebraica ashréi que implica uma rectidão (yashar) do ser humano que caminha rumo ao reino de justiça de Deus).

«Em Marcha!», não dos círculos fechados dos sindicatos de meia-idade, mas de uma nova Humanidade, um novo ser humano. Eu vou tentar. Um feliz 2013, são os votos do livreiro. (A imagem é de José Luis Cortés, http://blogs.periodistadigital.com/hermano-cortes.php)

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@wpshower

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