Fundamentos

Entre-tanto

«A fronteira que nos tirou do centro poderá ser o lugar que nos convém como casa, a nós, discípulos de Jesus que não teve lugar onde reclinar a cabeça». Por José Frazão Correia sj.

Entre-tanto

Entre-tanto: A difícil Bênção da Vida e da Fé

José Frazão Correia sj, Paulinas 2014, 190 págs. PVP: 13,00 euros.

«Entre outras coisas, num pequenino cartão, escreveu-me, há tempos, uma pessoa cara: ‘Apreciei muito o seu convite, mas, infelizmente, não o poderei aceitar. Sei que seria uma bela ocasião para voltarmos a conversar, mas devemos respeitar e abraçar a difícil bênção da contingência’. Respeitar e abraçar a difícil bênção da contingência. Extraordinária sabedoria de vida. E extraordinária síntese da vida. Bênção e custo. Dom e conquista. Promessa e limite. Inseparavelmente. Do mesmo modo a fé em Jesus Cristo. A graça do dom de Deus. O custo do reconhecimento humano. E, entre um e o outro, a difícil inscrição da fé na vida de cada dia, nos encontros de todos os dias, sobretudo quando o custo parece fazer esquecer a graça, e a banalidade, a promessa e o vazio, a alegria. Porém, é assim que nos espera a vida. É assim que se realiza a fé. E é tanto.

Entretanto, fica um compasso de espera na promessa a realizar, pela entrega de todos os dias. Tudo já dado. Quase tudo ainda por fazer. Cremos, entretanto, que a semente lançada à terra germinará e que a árvore dará o seu fruto, depois de ter dado flor. Entretanto, o inverno passará e o canto regressará aos campos. Entretanto, nascerá um novo dia, depois que passe a longa noite. Entretanto, o paraíso perdido chegará a ser cidade reconstruída.

Assim o esperamos, porque assim nos foi prometido. Adão chegará a reconhecer Eva e Caim a abraçar Abel, seu irmão. Saul vencerá o ciúme que sente por David e David não cobiçará a esposa de Urias. Pedro não negará o Senhor e o Senhor chegará a ser tudo em todos. Entretanto, iluminados e fortalecidos pela fé,cabe-nos viver a dificil bênção da contingência, a conjugação dos desejos mais sinceros com as mais modestas realizações, as declarações de amor com as declarações de guerra. A graça da Origem inscreve-nos na confiança. A promesso do Destino atrai-nos como graça de um encontro feliz. Assim, ir-se-á dando corpo à graça que nos salva pela fé. Individualmente. Como Igreja. Tudo a desejar e a fazer, como se tudo dependesse de nós. Tudo a esperar e a receber, porque tudo é dom. Até a difícil finitude.

Entre-tanto não é, porém, só a paciência da espera, o compasso de tempo para procurar viver bem a vida que nos foi dada. É, também, o desenho de um lugar fecundo. Por um hífen, um pequeno traço, já a palavra se dilata entre e tanto, para abrir espaço de possibilidade a novas palavras e a outros gestos. Na realidade, entre-tanto diz o lugar de todos nós. Ainda que fôssemos tão sós, seríamos sempre entre-o-tanto que nos faz ser e que tantos são para nós. Entre-tanto diz a Origem, o respiro do Espírito, o tanto desse outros tanto que são o Pai e o Filho, aquele que gera e aquele que é gerado. É daqui, deste entre-tanto-que-Deus-é que tudo chega a ser.

Deste lugar fecundo é criada, tão boa, a criação inteira, com os seus minerais e plantas e toda a espécie de animais. À sua imagem e semelhança são criados o homem e a mulher, na sua diferença, na sua comunhão. Deste lugar foi enviado o Filho ao mundo, depois de patriarcas e reis, sábios e profetas o terem desejado e anunciado. Na realidade, todos nascemos deste útero fecundo. Nele somos o que somos em verdade, pelo amor que foi derramado em nossos corações. Por fim, também eu, fui dado à luz por entre o tanto de meu pai e de minha mãe. Entre eles, no seu amor, testemunho de um Amor mais originário, gerou-se o melhor espaço para mim – ser filho. Extraordinária origem que, entretanto e não sem custo, vou realizando. É na difícil bênção deste lugar – ser filho muito amado – que, pelo Batismo, me inscreve a fé em Jesus Cristo. Ele, o Filho, entre nós. Tão reconhecido. Tão livre. Tão de Deus. Tão de cá.

Entre estas linhas, na forma de um tríptico, se desenham as páginas que seguem. Como um interstício, no centro está a fronteira, lugar de passos e de passagens, de perdas e de paixão. Se nos custa reconhecer como a fé se tornou irrelevante para tantos e como, por vezes, faltam às comunidades cristãs a força dos gestos e a unção das palavras que sejam capazes de dar um corpo vivo à graça do Evangelho, poderemos chegar a receber esta experiência de prova como bênção de um tempo favorável.

A pobreza do momento instaurará coisas novas. O custo do caminho revelará a surpresa d’O sempre presente. Talvez de outros modos, apontando noutras direcções. A fronteira que nos tirou do centro poderá ser o lugar que nos convém como casa, a nós, discípulos de Jesus que não teve lugar onde reclinar a cabeça. E, porém, amou todo o mundo como sua casa e todos os homens como seus irmãos.

No princípio coloco um interdito que não é uma proibição, mas a promessa da Origem que ninguém pode roubar nem apagar, aquela que permite e toma forma na pluralidade de experiências de vida e de práticas de fé. O princípio e fundamento de tudo e de todos nós, o mistério da vida, é Deus-que-é-amor, amor que foi derramado em nossos corações pelo Espírito do Ressuscitado. Nesta promessa se inscreve a confiança mais elementar que nos liga à vida e nos mantém em vida – é esta a árvore que dá os melhores frutos. Nela, poderemos atravessar todas as insinuações da serpente enganadora e vencer todas as formas de mal que daí nascem. O custo da finitude não é maldição. A vida, com o seu custo, é bênção, porque a sua Origem e o seu Destino é Amor. Neste húmus fecundo se enraíza a fé em Jesus Cristo.

Por fim, exponho a graça de vivermos como crentes a nossa humanidade, neste tempo que é o nosso, segundo o estilo de Jesus. Nos lugares e nos ritmos mais elementares da nossa existência, poderemos realizar a abundância do dom de Deus que nos é dado pela fé em Jesus Cristo. Talvez a nossa salvação passe, em grande parte, pelas coisas pequenas e pelos encontros habituais de cada dia. Aí poderemos chegar a ser filhos, avançando de um nascimento a outro nascimento, desejando a estatura de Cristo, os sentimentos do seu coração, o estilo da sua vida. Gerado pelo Pai desde toda a eternidade, quis ser gerado no tempo, no seio de Maria. Entre-nós, como filho que se faz irmão, quis respeitar e abraçar a difícil bênção da contingência. Entre-tanto, espera-nos igual graça».

Índice

1. Promessa. Do amor que Deus é. Do amor que nos faz ser | 2. Promessa. Da fisionomia da confiança. Da patologia do abandono | 3. Fronteira: A fé entre passos e passagens, perdas e paixões | 4. Estilo crente. Lugares e ritmos de composição da vivibilidade e da visibilidade da fé | 5. Estilo crente. A justa relação com a vida ou a graça de viver como filho | 6. Recomeço. | 7. Posfácio.

http://www.fundamentos.pt/encomendas/

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