Apesar de tudo, uma estrela ainda poderá brilhar, e poderá ser ao longe: pomo-nos a caminho? O Evangelho deste Domingo «da Manifestação», com um excerto de Bento XVI, «A Infância de Jesus». Bom Domingo!
«Tendo Jesus nascido em Belém da Judeia, no tempo do rei Herodes, chegaram a Jerusalém uns magos vindos do Oriente. E perguntaram: «Onde está o rei dos judeus que acaba de nascer? Vimos a sua estrela no Oriente e viemos adorá-lo.» Ao ouvir tal notícia, o rei Herodes perturbou-se e toda a Jerusalém com ele. E, reunindo todos os sumos sacerdotes e escribas do povo, perguntou-lhes onde devia nascer o Messias.
Eles responderam: «Em Belém da Judeia, pois assim foi escrito pelo profeta: E tu, Belém, terra de Judá, de modo nenhum és a menor entre as principais cidades da Judeia; porque de ti vai sair o Príncipe que há-de apascentar o meu povo de Israel.»
Então Herodes mandou chamar secretamente os magos e pediu-lhes informações exactas sobre a data em que a estrela lhes tinha aparecido. E, enviando-os a Belém, disse-lhes: «Ide e informai-vos cuidadosamente acerca do menino; e, depois de o encontrardes, vinde comunicar-mo para eu ir também prestar-lhe homenagem.» Depois de ter ouvido o rei, os magos puseram-se a caminho.
E a estrela que tinham visto no Oriente ia adiante deles, até que, chegando ao lugar onde estava o menino, parou. Ao ver a estrela, sentiram imensa alegria; e, entrando na casa, viram o menino com Maria, sua mãe. Prostrando-se, adoraram-no; e, abrindo os cofres, ofereceram-lhe presentes: ouro, incenso e mirra. Avisados em sonhos para não voltarem junto de Herodes, regressaram ao seu país por outro caminho.»
Mateus 2,1-12
«Queremos dedicar-nos à questão de saber que género de homens seriam aqueles que se puseram a caminho ao encontro do rei. Talvez fossem astrónomos; mas nem todos os astrónomos que eram capazes de calcular a conjunção dos planetas e a observaram tiveram o pensamento de um rei em Judá que era importante também para eles. Para que a estrela pudesse tornar-se uma mensagem, deveria ter circulado um vaticínio do tipo da mensagem de Balaão. Sabemos, por Tácito e Suetónio, que então circulavam expectativas segundo as quais sairia de Judá o dominador do mundo – expectativas que Flávio Josefo interpretou indicando ser tal figura Vespasiano (imperador romano), com o resultado de ter caído nos seus favores.
Vários fatores podiam concorrer para fazer intuir na linguagem da estrela uma mensagem de esperança. Mas tudo isso só podia pôr a caminho quem fosse homem de uma certa inquietação interior, homem de esperança, à procura da verdadeira estrela da salvação. Os homens de que fala Mateus não eram apenas astrónomos; eram «sábios»: representavam a dinâmica de ir para além de si próprio que é intrínseca à religião; uma dinâmica que é busca da verdade, busca do verdadeiro Deus e, consequentemente, também filosofia no sentido originário da palavra. Deste modo, a sabedoria sana também a mensagem da «ciência»; a racionalidade desta mensagem não se detinha meramente no saber, mas procurava a compreensão do todo, fazendo assim ascender a razão às suas possibilidades mais elevadas.
Com base em tudo o que se disse, podemos fazer uma certa ideia sobre as convicções e os conhecimentos que levaram aqueles homens a encaminhar-se para o recém-nascido «rei dos judeus». Podemos, com razão, afirmar que eles representam o caminho das religiões para Cristo, bem como a autossuperação da ciência rumo a Ele. De certo modo, eles encontram-se na esteira de Abraão, que, ao chamamento de Deus, partiu; por outro lado, encontram-se na esteira de Sócrates e do seu questionamento, para além da religião oficial, sobre a verdade maior. Neste sentido, aqueles homens são antecessores, precursores, indagadores que desafiam todos os tempos.»
Bento XVI: «Jesus de Nazaré: a Infância de Jesus». Lisboa 2012, pág. 81
António Couto, «Guiados por uma Estrela», em www.mesadepalavras.wordpress.com
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